
Frias Inesquecveis
(Having Gabriels Baby)
Kristin Morgan
"Desculpe-me, mas h um homem nu na minha cama...".
Michelle Ames havia planejado suas frias meticulosamente, e acordar ao lado do sexy Gabriel Lafleur no estava no programa. Ainda mais sem se lembrar do que fizera
na noite anterior!
Gabriel no podia acreditar que havia se metido em uma enorme confuso logo nas primeiras frias que tirava depois de tantos anos... Bem, mas ele e Michelle eram
adultos, e poderiam seguir cada um o seu caminho, esquecendo aquela noite de paixo... Mas o destino resolveu lhes dar um tempo para que eles se acostumassem a ser
chamados de "mame" e "papai", assim como de "marido" e "mulher"!



Copyright  1997 by Barbara Lantier Veillon
Originalmente publicado em 1997 pela Silhouette Books,
 diviso da Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo total ou parcial, sob qualquer forma.

Esta edio  publicada atravs de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canad.
Silhouette, Silhouette Desire e Colofo so marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.

Todos os personagens desta obra so fictcios.

Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.

Ttulo original: Having Gabriels Baby

Traduo: Mrcia Gimenez

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524  10 andar CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil
Copyright para a lngua portuguesa: 1997 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Fotocomposio: Editora Nova Cultural Ltda. Impresso e acabamento: Grfica Crculo.




Digitalizao: Nina

Reviso: Andresa Bastos
















CAPTULO I

Quando os primeiros raios do sol penetraram pela janela do quarto de hotel, Michelle Ames virou-se na cama, sentindo as tmporas latejando por causa de uma terrvel
dor de cabea.
Ao tentar se mover, concluiu que precisava tomar duas aspirinas com urgncia. Na verdade, o quarto parecia girar ao seu redor. Talvez uma bolsa de gelo fosse mais
eficaz.
Aquele era seu ltimo dia de frias em Acapulco, e certamente no seria dos melhores. Michelle chegara, vinda de San Diego, cinco dias antes, e planejara apenas
passar alguns dias tranqilos, repousantes, no balnerio mexicano.
Ainda no conseguia entender o que acontecera na noite anterior e que lhe causara aquela ressaca. Afinal de contas, simplesmente sara para jantar com Gabriel Lafleur,
um fazendeiro de Louisiana que se tornara seu companheiro de viagem. Claro que era um homem atraente, e Michelle deixara-se relaxar pela primeira vez em anos, aproveitando
a agradvel companhia. Mas fora tudo. Uma noite de diverso.
Se ao menos tivesse coragem de abrir os olhos...
Mas a verdade era que no conseguia pensar direito. Claro que cometera excessos, e no estava nem um pouco acostumada a esse tipo de coisa.
Pouco a pouco, alguns lampejos de recordaes da noite anterior comearam a surgir em sua mente. Ela e Gabriel tomavam tequila e riam.
"Cus, por que justamente tequila?", ela se perguntou, desanimada.
As dvidas de Michelle se sucediam com espantosa velocidade. O que teria acontecido depois que deixaram a cantina? Talvez, se fosse ao quarto de Gabriel, que ficava
dois andares abaixo, conseguisse lembrar tudo com mais clareza.
Gemeu outra vez, sentindo dores por todo o corpo. Nunca passara to mal em toda a vida. Um segundo depois percebeu que estava completamente nua sob os lenis. Ergueu
a cabea, em um gesto de alerta. Oh, oh... Nunca dormia nua. E tambm no passava da conta na bebida. Jamais.
Definitivamente, havia algo muito errado.
Com ou sem dor de cabea, ela decidiu que j era hora de encarar a realidade. Ergueu as sobrancelhas devagar, limpando os olhos com as costas da mo. Precisou de
algum tempo para se acostumar  penumbra.
Foi ento que seu olhar se deteve na cala masculina pendurada na cadeira ao lado da cama. A porta do banheiro se abriu subitamente, e de l saiu ningum menos
do que Gabriel Lafleur, seu acompanhante no jantar da noite anterior. Estava nu, coberto apenas por uma toalha de banho, o que deixou Michelle em pnico.
Ao notar que ela j acordara, Gabriel parou, e s falou depois de alguns segundos, usando um tom de voz muito grave:
 Ora, bom dia! Finalmente voc acordou.
Chocada, incapaz de falar, Michelle sentiu o estmago contrair-se. Depois de levantar-se abruptamente, correu at o banheiro, acometida por uma incrvel crise de
enjo.
 Hei! Vamos l... No vai me dizer que est assim por minha causa, vai?  ouviu Gabriel dizer.
Quando voltou ao quarto, sua viso j estava mais ntida. Sentia-se vulnervel... nua... humilhada. No ntimo, porm, sabia que no era prudente demonstrar tais
sentimentos. Por isso, encarou o homem com a expresso mais impassvel que conseguiu.
Rezava para que aquilo no passasse de um pesadelo. Mas sua esperana desvaneceu quando Gabriel tocou-a delicadamente no brao, demonstrando que a situao era
bem real.
 Voc est bem?
Ela o encarava como se fosse uma ladra surpreendida em flagrante.
 Claro. Claro que estou bem.
 Isso  timo. Uma mulher em prantos  a ltima coisa que eu gostaria de enfrentar esta manh.
 O que est fazendo em meu quarto?  Michelle indagou, embora j desconfiasse da resposta.
Desejava estar enganada, mas pelo menos de uma coisa tinha certeza: Gabriel no a veria chorando, jamais!
 Bem...  ele comeou, curvando os lbios num sorriso que deixava entrever dentes brancos e perfeitos. Na verdade era uma boca carnuda e sensual, perfeita para
ser beijada...  Espero que no se incomode por eu ter usado seu chuveiro, mas nessas circunstncias no imaginei que isso a irritasse.
Michelle engoliu em seco.
 Ah... e que circunstncias so essas?  perguntou com hesitao, examinando o belo rosto de Gabriel com um olhar penetrante.
No conseguiu se conter e acabou olhando para o corpo msculo e poderoso. O sorriso dele acentuou-se.
 No se lembra? Ela piscou. Duas vezes.
 Lembrar do qu?
 Do que fizemos...
O corao de Michelle batia como um tambor.
 O que ns fizemos?
Os olhos de Gabriel estreitaram-se.
 No se lembra mesmo, no ?
S naquele instante ela notou que estava parada no meio do quarto, completamente nua. Arrancou um dos lenis da cama com um puxo e cobriu o corpo, envergonhada.
 Claro... que eu lembro. Ns... jantamos juntos.
 E...
 E... ahn... bem, ento ns paramos numa cantina para tomar o ltimo drinque.
Voltou a sentar-se na cama, sentindo-se tola por no conseguir se lembrar de nada.
 E ento?
Michelle encarou-o, calada.
Ele retribuiu o olhar com um sorriso, dizendo um momento depois:
 Bem, no se lembra de nada, no ? Hesitando em responder, Michelle apertou a borda do lenol entre os dedos.
 No, no lembro.
 Bem, no precisa sentir-se mal. Nem mesmo eu me lembro de tudo.
Os olhos dela se arregalaram.
 O que quer dizer com isso?
 Acho que j percebeu que passamos a noite juntos.  Ele fez uma pausa intencional, como se esperasse algum comentrio de Michelle.
 Isso no aconteceu. Ela limitou-se a encar-lo com uma expresso desconfiada e perplexa, voltando a sentir-se enjoada.
Passando os dedos pelos cabelos com um gesto nervoso, Gabriel Lafleur desviou o olhar.
 Vou ser franco com voc. Tambm no me lembro exatamente de tudo o que aconteceu depois que deixamos a cantina. Apenas posso supor que a bebida nos alterou muito
e acabou causando essa situao.
 Em outras palavras, est me dizendo que ns dois ficamos bbados.
 Sim  ele murmurou, meneando a cabea devagar.  Acho que se pode dizer isso.
Michelle fechou os olhos outra vez, angustiada.
 Oh, como posso ter feito uma coisa to idiota?
 De qualquer forma, preciso saber uma coisa.
Abrindo os olhos, Michelle deixou escapar um suspiro desanimado.
 Como eu j disse, no consigo me lembrar de nada. E, para dizer a verdade, prefiro mesmo esquecer tudo isso.
O olhar dele tornou-se desafiador.
 Sim... est certo, tambm penso assim, mas existe um pequeno detalhe...
Mais uma vez Michelle suspirou. Aquela era uma atitude tipicamente masculina. Sem dvida ele queria faz-la recordar todos os detalhes srdidos da noite anterior.
 Que detalhe?
 Por acaso no se lembra de nosso casamento? Erguendo a cabea abruptamente, Michelle abraou os joelhos, desesperada.
 O qu?
 No se lembra se nos casamos antes de voltar ao hotel?
 Voc est louco? Por que diabos eu faria uma coisa dessas?
Ele abaixou a cabea.
 Bem, tambm no posso explicar. Mas sei que a certa altura da noite voc disse que no dormiria com um homem se no fosse casada com ele...
Estupefata, Michelle ergueu a mo  meia altura. Um instante depois conseguiu acalmar-se e olhou para o dedo anular da mo esquerda. Nele, apenas o anel comprado
durante as frias brilhava. Forou-se a respirar profundamente antes de falar:
 Sim... bem, acredito que devo mesmo ter dito uma bobagem desse gnero, principalmente se voc me convidou para ir para a cama... Veja bem, sei o que deve estar
pensando a meu respeito, mas a verdade  que no costumo me embriagar, e muito menos dormir com estranhos.
 Ora, ora... no precisa se defender desse jeito  Gabriel murmurou.  Mas, de qualquer maneira, no me lembro se fizemos mesmo isso depois que samos daquela cantina.
Quero dizer, no me lembro se nos casamos ou no...
Voltando a fechar os olhos, Michelle suspirou. Sem dvida sua memria no colaborava nem um pouco. Mas uma coisa era certa. No podia acreditar que uma catstrofe
daquele tamanho pudesse ter acontecido!
Com renovada determinao, voltou a encarar Gabriel.
 Isso  ridculo. Eu nunca faria uma coisa idiota dessas  replicou teimosamente, embora sentisse o corao acelerar-se de forma incontrolvel.  Voc est exagerando.
 Temo que no. Pelo menos...  o que parece, no ?
 De jeito nenhum.
 Minha cara, se me lembro bem, foi voc quem determinou as regras, no eu.
 Escute, posso garantir que no o forcei a nada.
 Posso dizer exatamente o mesmo  ele respondeu.
 Com certeza no vim para Acapulco com o objetivo de encontrar um marido.
Gabriel colocou as mos na cintura.
 Tambm no vim encontrar uma esposa e, como voc, no estou gostando nem um pouco dessa situao. Apenas rezo para que no tenhamos realizado essa loucura. Pelo
menos as coisas no seriam to complicadas!
Aquilo era verdade, Michelle pensou. Mesmo assim, era difcil encarar o fato de que fora para a cama com aquele homem. Afinal de contas, tal atitude feria todos
os seus princpios morais. De qualquer forma, tentando conter a ansiedade crescente, continuou encarando Gabriel com firmeza e voltou a falar:
 Como pode dizer que no se lembra do que nos aconteceu na noite passada?
Ele encolheu os ombros.
 Creio que minha desculpa  igual  sua... Muita tequila, acho.
 Oh, no!  Michelle murmurou, certificando-se de que o lenol continuava a cobrir-lhe a nudez. Apesar de manter a calma, ainda no conseguia acreditar que tudo
aquilo estava mesmo ocorrendo.  Isso  terrvel!  gemeu.
Gabriel Lafleur voltou a colocar as mos na cintura e suspirou pesadamente.
 Sei exatamente o que quer dizer.  E ento, sem parar para tomar flego, continuou:  Se realmente nos casamos na noite passada,  possvel que
haja alguma prova disso, no ? Quer dizer, alguma certido... ou coisa do gnero.  Virou as costas e caminhou depressa at a mesa onde se encontravam
seus pertences, para procurar a prova da qual falara. Como nada encontrasse, virou-se para Michelle e encarou-a com seus grandes e lmpidos olhos castanhos.
 No fique a sentada. Levante-se e me ajude a procurar, por favor. Foi voc mesma que disse que a situao no lhe agrada nem um pouco.
O tom frustrado foi o bastante para faz-la se mover.
 E no me agrada mesmo.
Amarrando o lenol em torno do corpo, levantou-se e comeou a procurar tambm, abrindo gavetas, olhando sob a cama... Encontrou apenas a prpria lingerie, alm
da roupa de baixo de Gabriel. As peas deixaram-na ainda mais embaraada. Pouco a pouco, memrias um pouco mais ntidas da noite anterior comearam a surgir. Lembrou-se
de ter sido carregada por Gabriel. Como se fossem recm casados. E, claro, logo depois reviu claramente uma cena dos dois fazendo amor...
Na verdade, as recordaes eram to excitantes que chegaram a causar-lhe um arrepio gelado na espinha. No queria se lembrar dos detalhes sensuais, assim como no
queria descobrir uma certido que os declarasse casados. Afinal de contas, cometera um erro ao embebedar-se e ir para a cama com ele.
 Encontrou algo?  Gabriel perguntou, juntando-se a ela um segundo depois.
 Oh... ainda no.  Podia sentir o agradvel perfume da colnia que ele usava, e justamente por isso afastou-se um passo.  E voc?
 Tambm no.
Michelle notou que ele olhava acintosamente para o lenol que lhe cobria os seios fartos, e por isso tremeu.
Depois de limpar a garganta, Gabriel passou os dedos pelos cabelos cheios.
 Isso provavelmente  um bom sinal. Talvez tenhamos decidido no casar. Tambm pode significar que no encontramos nenhum juiz de paz para celebrar a cerimnia...
 Pode ser  Michelle resmungou.  Mas, infelizmente, acho que no ando com muita sorte nos ltimos tempos. J imaginou que podemos ter simplesmente perdido a
certido?
Gabriel franziu as sobrancelhas, como se a hiptese no o convencesse plenamente. Mas isso no a preocupava. Tudo o que Michelle queria era um pouco de paz de esprito
para pensar claramente na situao. Com gestos mecnicos, continuou procurando nos compartimentos da bolsa, mas no encontrou nada.
 Voc j olhou em todos os seus bolsos?  perguntou.
 Chequei minha cala, mas ainda no encontrei a camisa...
 Aqui est  ela informou, abaixando-se para apanhar a pea no cho e estendendo-a para Gabriel.
Quando os olhares dos dois se encontraram, trocaram sorrisos.
 Muito obrigado.
 De nada.
 Sobre o que aconteceu ontem...
 Esquea. A culpa foi to minha quanto sua.
 Sim... bem, mas no era exatamente isso que eu ia dizer.
 Oh.
 Bem... ahn... quanto ao sexo... foi timo, voc sabe. Michelle lutava para afastar tais pensamentos.
 Realmente no me lembro de nada.  "Mentirosa."  E prefiro que as coisas fiquem como esto.
 Como quiser.
Os olhares de ambos encontraram-se novamente, e ela teve que se esforar muito para no demonstrar quanto  presena de Gabriel a afetava. Por que aquele homem lhe
provocava aquilo? L estavam os dois, praticamente estranhos, trancados num quarto de hotel, seminus. Estaria louca ou apenas procurando confuso?
Afastou-se, sentindo o corao acelerado.
 O que foi?  perguntou com a respirao entrecortada, notando que ele retirava algo do bolso da camisa.
 No sei  Gabriel respondeu, nitidamente ansioso. Comeou a desdobrar uma folha, que estaria em branco no fossem algumas palavras escritas a mo:
 Gabriel e Michelle, eu os declaro marido e mulher. Assinado, Jos Cuervo.
Jos Cuervo era a marca da tequila que eles haviam bebido na noite anterior.
Passaram-se vrios momentos sem que nenhum dos dois dissesse uma palavra. Finalmente Michelle quebrou o silncio, incapaz de conter-se por mais tempo.
 O que esse papel significa?  perguntou num sussurro. Falava baixo e muito devagar, como se apenas pensasse em voz alta.
Ainda olhando para o amarfanhado pedao de papel que tinha entre as mos, Gabriel manteve-se em silncio. Sentindo-se angustiada, Michelle tocou-o no ombro.
 Preciso de uma resposta  ela continuou.  O que esse papel significa?
 Diabos... como se eu soubesse! Ele murmurou, amassando a folha e arremessando-a no recipiente de lixo que ficava no canto do quarto.  Bem, acho que agora no
temos mais problemas. Tudo o que aconteceu foi parar no lixo.
 Tem certeza?  Michelle perguntou, ainda atnita. Sentou-se na beira da cama e respirou profundamente, na esperana de colocar as idias em ordem.
 Escute  Gabriel murmurou, virando-se e cruzando os braos.
"Eu fiz amor com esse homem", ela pensou, sentindo um tremor ao recordar-se de outras cenas da noite anterior. "Muitas e muitas vezes."
Era quase impossvel respirar ao pensar naquilo. Por isso, engoliu em seco e forou-se a encar-lo.
 O que voc estava dizendo?
 Que voc deve ter notado que aquele papel no  nenhum documento legal. Certamente um juiz de paz no nos daria um manuscrito como aquele.
 Sei disso. Em que est pensando?
 O papel prova que no somos casados legalmente, s isso.
 Entendo. Mas quem pode ter escrito aquilo?
 No fao a mnima idia. Pelo que sei, pode ter sido qualquer pessoa. Talvez algum que tenhamos encontrado na cantina...
 Ento no foi voc!
 Eu? No, claro que no.  Depois, estreitando os olhos, perguntou:  Foi voc?
 Nem pensar  Michelle murmurou, rindo pela primeira vez desde que acordara.
 Bem, nesse caso estamos de volta  estaca zero. Ainda no podemos saber com certeza absoluta o que fizemos ontem  noite.
Subitamente, lembrando que j estava atrasada para cumprir os planos que fizera para o dia, Michelle levantou-se de um salto.
 Que horas so?
Gabriel olhou de relance para o relgio de pulso, no criado-mudo ao lado da cama.
 Passa das onze e meia.
 Oh... droga! Como pude ser to idiota? Meu vo para San Diego parte em menos de uma hora... e eu nem mesmo estou vestida!
Correu para o armrio onde guardava a bagagem, que preparara na tarde anterior, e apanhou o vestido que escolhera para a viagem.
 Faa-me um favor. Chame um txi e pea para que o motorista me espere na porta do hotel em dez minutos.  Enquanto dizia essas palavras apressadas, correu ao banheiro,
para se trocar.
Minutos mais tarde, saiu. J tomara banho e estava pronta. Esperava que Gabriel Lafleur j tivesse voltado para o prprio quarto, mas ele continuava ali, parado
diante da janela e usando as mesmas roupas da noite anterior.
Sem fazer nenhum comentrio, Michelle apanhou os objetos que deixara sobre a cmoda e enfiou tudo na ncessaire. Depois apanhou as malas, segurando uma em cada mo,
e limpou a garganta para chamar a ateno dele.
"Como se no tivesse me ouvido!", pensou Michelle, contrariada.
Gabriel virou-se e encarou-a, com as mos nos bolsos da cala.
 Estou indo embora  ela informou.
Notou que ele respirava profundamente.
 No sei ao certo o que dizer num momento como esse.
 Ento no diga nada.
Um sorriso tmido curvou os lbios de Gabriel.
 Mas acho que preciso dizer algo. Sinto que lhe devo isso.
 Voc no me deve nada. Afinal de contas, j sou uma mulher adulta.
 Algo me diz que sou culpado por essa situao. Sinto muito.
 Escute, tudo j aconteceu, certo? Agora vamos nos comportar como pessoas adultas, modernas, e cuidar de nossas prprias vidas.
 Bem, se voc pode viver com isso, ento com certeza eu tambm vou conseguir. Tive a impresso de que estava irritada, momentos atrs. Por isso fiquei preocupado.
Michelle suspirou profundamente. Na verdade, no sabia se poderia esquecer aquela noite com tanta facilidade. Mas naquele momento no tinha outra alternativa a
no ser tentar.
 Para que no fique nenhuma dvida sobre o assunto, logo que eu chegar em casa vou mandar meu advogado checar essa histria. Sem dvida ele poder
resolver algum problema que tenhamos criado para nossas vidas... Est bem assim?
Gabriel meneou a cabea.
  mesmo uma boa idia.  Caminhou at a mesa do vestbulo e anotou algo no bloco de papel timbrado do hotel.  Aqui  disse um momento depois, arrancando uma
folha.  Esse  meu telefone, caso seu advogado precise entrar em contato comigo.  Encolheu os ombros.  Nunca se sabe...
Ela hesitou por um segundo antes de apanhar o papel, mas finalmente pegou-o, dobrando-o em seguida e guardando-o num dos bolsos.
 ... nunca se sabe  murmurou, contrariada.
 Melhor prevenir  Gabriel comentou com um sorriso.
 Verdade  ela concordou, sentindo dificuldade para respirar.  Mas prefiro que tudo isso no tenha passado de um mal-entendido.
Michelle virou-se para a porta.
 Hei! Espere um minuto  ele chamou num tom de voz mais suave.
Girando sobre os calcanhares para encar-lo, ela arqueou as sobrancelhas numa expresso desconfiada.
 Sim?
 Estive pensando... Acha que nos casamos?
A pergunta a surpreendeu por um instante. Vrios e dolorosos momentos se passaram antes que ela reencontrasse a prpria voz.
 Eu... ahn... no, sinceramente acho que no fizemos isso.
 Sim  ele murmurou, pensativo, depois de hesitar tambm.  Penso da mesma forma...
 Adeus.
 Adeus, garota. Cuide-se bem.
Ento, sentindo um aperto no peito, Michelle respirou profundamente e saiu do quarto sem dizer mais nada.
Sabia que aquela seria a ltima vez que veria Gabriel Lafleur. E, embora detestasse admitir, uma pequena parte de seu corao sofria com isso.
Podia ser uma tolice. De qualquer forma, era o que sentia.

CAPTULO II
Ao chegar em casa naquela noite, Michelle respirou profundamente antes de abrir a porta e entrar. O telefone estava tocando e ela podia apostar que sabia quem era.
Se havia algo que podia dizer sobre o prprio pai, era que se tratava de um homem muito persistente.
De qualquer maneira, no se sentia nem um pouco disposta a falar com ele naquele momento. Precisava tomar duas aspirinas e dormir um pouco antes de enfrentar o
mundo outra vez. J tivera preocupaes o bastante naquele dia. Ficou imvel no vestbulo at que a secretria eletrnica atendesse, confirmando suas suspeitas iniciais.
O tom condescendente da voz do pai deixou uma mensagem breve, pedindo que ela retornasse a ligao assim que chegasse. O mostrador digital que indicava o nmero
de mensagens recebidas pelo aparelho demonstrava que ele j devia ter ligado vrias vezes.
Bem, podia tentar o quanto quisesse, mas Michelle no agentaria mais seus conselhos e crticas. No depois que ele a humilhara deliberadamente diante de todos os
empregados. Afinal de contas, no era todo dia que uma filha leal descobria que o prprio pai colocara algum para espionar-lhe o trabalho. Michelle sentira-se manipulada
e desprestigiada. No admitiria ter a vida controlada por ningum.
Daquela vez, o pai realmente a ferira. Na verdade, estava se preparando para a aposentadoria e pretendia deixar o comando da empresa nas mos da filha, mas secretamente
suspeitava que Michelle no era capaz de sair-se bem.
"Problema dele", pensou, irritada.
O resultado final fora a humilhao pblica a que o pai a submetera. Jamais o perdoaria.
Mas no momento havia outras coisas que a preocupavam. Gabriel Lafleur, por exemplo.
No... na verdade no queria pensar nele tambm. O problema era que no conseguia se controlar. A primeira coisa que faria na manh seguinte seria ligar para o
advogado e certificar-se sobre o que acontecera realmente em Acapulco. Cus! Ser que no conseguiria relaxar nunca?
Foi direto para o banheiro. Sem dvida um banho quente antes de dormir a ajudaria a se acalmar. Cerca de meia hora depois, pronta para ir para a cama, ouviu a campainha
tocar. Mais uma vez no foi difcil descobrir quem podia ser...
 Onde esteve, Michelle?  Sylvan Ames perguntou logo que ela atendeu.  Telefonei vrias vezes nos ltimos dias... No recebeu as mensagens?
Infelizmente a dor de cabea ainda no passara totalmente, e por isso ela encarou o pai com expresso contrariada.
 Estive fora da cidade  respondeu secamente, atirando-se no confortvel sof da sala.
 Isso no  desculpa  ele declarou, parando no meio da sala numa atitude imponente. Sua voz grave era vibrante, e parecia preencher todo o ambiente.  Fiquei terrivelmente
preocupado  continuou, colocando as mos na cintura. Sua pose, como sempre, era bastante arrogante.
 Gostaria de poder acreditar nisso  ela respondeu, sem ao menos se incomodar em encar-lo. Massageou lentamente as tmporas para tentar fazer a dor diminuir.
Ainda estava muito zangada com o pai. E ferida. Tinha todo o direito de sentir-se assim. Era hora de Sylvan Ames descobrir que ela no estava no mundo apenas para
satisfazer a seus caprichos.
 Faz idia do embarao que sua ausncia me causou na empresa? Todos perguntaram por voc, o que me obrigou a inventar mentiras para explicar o fato...
Abrindo os olhos, Michelle ergueu a cabea e encarou-o.
  mesmo? Bem, por que simplesmente no disse a verdade, contando a eles que me demiti e no pretendo mais trabalhar com voc?
 Que tipo de idiota acha que sou? Sabe que eu nunca diria isso a meus empregados. Agora ns dois sabemos que voc reagiu exageradamente naquele dia. Tenho certeza
de que j deve ter concludo que foi uma tolice agir como agiu, e est pronta para reassumir sua posio.  Caminhou at a porta, virando-se ao atingi-la.  Na
verdade, espero que esteja em seu escritrio amanh s oito. Conseguimos uma nova conta de publicidade, que precisa de sua ateno.
 Sinto muito, mas no vai ser possvel  Michelle replicou.
Aturdido, Sylvan encarou-a de maneira direta.
 J estou cansado disso. Quero que pare de agir como uma criana mimada.
 Ser que no est querendo dizer "uma mulher tola"?
 Sim. Isso tambm!
 Bem, para sua informao, no estou agindo assim. E, para provar isso, volto a recusar sua oferta.  Como pode ver, decidi enfrentar o mundo sozinha... sem sua
ajuda.
 No seja absurda. Voc nunca conseguiria  Sylvan Ames comentou secamente.
Michelle suspirou.
 Nenhum de ns pode saber enquanto eu no tentar. E  exatamente o que pretendo fazer. Com certeza voc entende meus motivos.
O olhar do pai estreitou-se.
 Voc no vai conseguir, sem minha ajuda.
 Talvez no. Mas  um risco que tenho que correr.
Furioso, Sylvan ergueu o dedo em riste.
 Vai quebrar a cara, estou avisando. Mas, quando isso acontecer, no volte correndo para mim. Teve sua chance... Pode apostar que no vou ouvir suas lamentaes
depois.  E ento, girando nos calcanhares, saiu, fechando a porta com um estrondo.
Lgrimas quentes rolaram pelo rosto de Michelle.
 No precisa se preocupar, papai. No vou implorar nada. Jamais  sussurrou, quebrando o silncio que se seguiu  partida dele.  Jamais...
Nas trs semanas seguintes, Michelle tentou reorganizar a prpria vida, procurando trabalho em outras agncias de publicidade e preparando um novo currculo. Durante
todo o tempo no foi capaz de esquecer Gabriel Lafleur e Acapulco, embora achasse aquilo inexplicvel.
Na verdade, esforava-se para tirar a situao da cabea, mas as recordaes pareciam brotar em sua mente com mais e mais fora. Estranho...
Sentindo-se fraca e desanimada, Michelle concluiu que podia estar doente e decidiu consultar um mdico. Estava realmente convencida de que havia algo errado com
sua sade. Talvez tivesse adquirido algum vrus durante sua estada no Mxico. Quem poderia saber?
Gabriel Lafleur estava parado na imensa varanda da ancestral casa de fazenda, construda cento e cinqenta anos antes por seus antepassados. Era poca do plantio,
mas, em vez de juntar-se aos empregados contratados para o trabalho, como sempre, ele se comportava como um adolescente tolo e romntico. Tudo o que conseguia fazer
era pensar nela.
Droga! J fazia semanas que deixara Acapulco. Era hora de esquecer aquela mulher. De qualquer forma, sua mente continuava teimando em fixar-se em recordaes da
noite em que fizera amor com Michelle...
E era exatamente aquilo que o atormentava. No queria nem mesmo pensar no assunto. A traio da ex-esposa devia t-lo feito entender, de uma vez por todas, que jamais
poderia confiar nas mulheres. A menos, claro, que fosse um completo idiota.
E estava se comportando como um. No havia nenhuma dvida que Michelle Ames no era a pessoa certa para ele, o que fazia aquela fixao parecer ainda mais tola.
Em vez de agir como um colegial apaixonado, devia tentar colocar os pensamentos em ordem e esquecer aquela histria definitivamente.
No comeo, ficara surpreso por no ter nenhuma notcia dela ou do advogado. Por algum motivo, acreditara firmemente que entrariam em contato novamente, nem que
fosse apenas para esclarecer a situao.
Durante a ltima semana, entretanto, as recordaes daquela nica noite tinham se tornado mais e mais claras. Gabriel considerara at mesmo a hiptese de procur-la...
Mas talvez no fosse uma boa idia. Com certeza, ao ligar para Michelle estaria procurando confuso. Alm disso, se ela no estava preocupada com nenhum problema
legal, por que ele deveria estar?
Na verdade, devia se preocupar com as propriedades que recebera da famlia, como herana. A ltima coisa que precisava era de uma mulher que aparecesse de uma hora
para outra fazendo exigncias legais.
S no acreditava que Michelle Ames fosse esse tipo de pessoa. Por que pensava desse jeito?
Decidiu afast-la da mente. Tinha problemas suficientes com a administrao da fazenda. Eram as terras de seus ancestrais, as terras que seu pai lhe legara e,
a despeito das dificuldades que a vida de fazendeiro lhe impunha, devia concentrar-se apenas no trabalho. Suas recordaes em relao  Michelle Ames, portanto,
precisavam ter um fim.
Grvida!
Michelle saiu do prdio onde se localizava o consultrio mdico para o sol tpico do vero na Califrnia. No sorria, nem caminhava apressada, como sempre costumava
fazer. Dirigiu-se lentamente at o carro e foi para casa em silncio.
Como podia ter acontecido? Logo com ela, que nunca se esquecia de tomar precaues quando se tratava de sexo... No era justo que tivesse que pagar um preo to
alto por uma nica falha!
O diagnstico a apanhara de surpresa. Nem por um instante considerara a hiptese de estar grvida. Mas, de acordo com o mdico, esperava um filho h quatro semanas.
O pai? S podia ser Gabriel Lafleur.
Difcil acreditar naquilo. Era um choque terrvel. Estava definitivamente aterrorizada. Sem dvida, era muito pouco qualificada para a maternidade...
Talvez o mdico tivesse cometido um engano.
No... na verdade, pensou pouco depois, o erro fora todo dela. Ningum a forara a dormir com Gabriel Lafleur. Agora era hora de enfrentar a crise causada por aquela
noite de desvario. E teria que enfrentar tudo sozinha. Sem a ajuda de ningum. Muito menos do prprio pai.
A perspectiva de tornar-se me solteira tambm a angustiava. Como conciliar a carreira e um beb? Tambm no podia esquecer que, naquele exato momento, ainda no
estava empregada. Mas essa era apenas uma parte do problema.
No sabia absolutamente nada sobre crianas. Sua me morrera muito cedo, e o pai no voltara a se casar. Por isso, no fazia a mnima idia de como ser uma boa me.
Entretanto, daquele momento em diante tudo mudaria. Como enfrentar a situao?
Ao dormir, naquela noite, voltou a sonhar com Gabriel e Acapulco, acordando mais nervosa do que nunca.
Nos dias que se seguiram, Michelle tentou no pensar muito no assunto. Mas conhecia-se bem o bastante para saber que no havia outra opo a no ser ter o beb.
Aquilo no lhe facilitava nada as coisas, claro, mas pelo menos era uma deciso que lhe dava uma certa paz de esprito.
Agora precisava confrontar-se com problemas mais imediatos. San Diego era sua cidade, conhecia muita gente l. Seu pai era uma pessoa importante, que se preocupava
muito com a reputao ilibada. A gravidez da filha sem dvida seria um grande embarao para ele... e para Michelle.
Precisava arrumar uma forma qualquer de manter a situao em segredo, embora no ntimo soubesse que aquilo seria virtualmente impossvel. Pior do que isso, Sylvan
Ames no s ficaria embaraado, mas certamente a ridicularizaria pela deciso de ter um filho quando no era capaz de cuidar de si mesma...
Foi exatamente por pensar nisso que ela se deteve, recolocando o fone no gancho e voltando atrs na deciso de informar a Gabriel Lafleur sobre a criana. No queria
que pensasse, como seu pai, que estava implorando por ajuda e esperando que ele assumisse a responsabilidade pelo problema. Afinal de contas, ainda pretendia provar
a Sylvan Ames e a todo mundo que era capaz de cuidar da prpria vida.
Alm disso, o que ganharia ligando para Gabriel? Sabia que ele no pretendia se casar, assim como ela. Pelo menos fora o que haviam dito no Mxico, vrias vezes,
alis. E, de acordo com seu advogado, Smith Jamison, no fora encontrada nenhuma prova do casamento de ambos em Acapulco. No fazia sentido imaginar que Gabriel
Lafleur se interessasse em falar-lhe outra vez, quaisquer que fossem as circunstncias. Por outro lado, era ridculo ligar apenas para satisfazer o desejo ntimo
de ouvir a voz dele outra vez. Absolutamente ridculo.
Mesmo assim, vrias noites depois, num momento de extrema fraqueza, em que imaginava o fardo que seria carregar o filho daquele homem por nove meses sem que ele
soubesse, Michelle apanhou-se ligando novamente para o nmero anotado na folha de papel timbrado do hotel em Acapulco.
Claro que no pretendia dizer nada sobre o beb. Simplesmente desejava ouvir a voz de Gabriel, e talvez at mesmo conversar um pouco antes de desligar. Aquilo seria
o bastante para preencher o vazio que sentia na alma.
O telefone tocou uma, duas... trs vezes.
Aquela altura, ela comeava a duvidar de que fazer aquela ligao fora uma boa idia. Talvez s piorasse as coisas. Mas subitamente algum atendeu, fazendo com que
Michelle prendesse a respirao.
 Al  uma mulher disse com o mesmo sotaque carregado de Gabriel.
A voz parecia ser a de uma pessoa mais velha. Na verdade, parecia ser da me dele. Isso fez o peito de Michelle contrair-se. Por outro lado, talvez a explicao
fosse bem diferente.
Subitamente ela comeou a imaginar que as informaes que Gabriel lhe dera no Mxico talvez no fossem verdadeiras. "Talvez ele seja casado. Talvez seja at mesmo
pai."
O pensamento atingiu-a profundamente, penetrando em sua mente como um punhal afiado.
 Quem fala?  a mulher perguntou, indignada.   algum tipo de trote? Porque, se for isso...
Michelle engoliu em seco.
 No... no  um trote  finalmente conseguiu dizer.  Sinto muito se lhe dei essa impresso.
 Ento quem fala?
 Eu... sou Michelle Ames.
 Est vendendo alguma coisa? Se for isso, est perdendo seu tempo.
 Ahn... no. No estou vendendo nada.
 Tudo bem. Com quem deseja falar?
 Na verdade...  Michelle disse, escolhendo as palavras. Sem dvida aquela mulher a intimidara.  Acho que disquei o nmero errado.
 Para onde voc ligou?
 Ahn...  Trmula, Michelle voltou a olhar para o nmero anotado na folha de papel e o disse em voz alta, incluindo o cdigo de rea.
 Bem, discou para o nmero certo  a mulher informou no outro lado da linha.  Ento, se no quer falar comigo, creio que deve ser para Gabe, no ?
Gabe. O apelido de Gabriel, sem dvida. Bem, pelo menos ele fornecera o nmero certo. Michelle limpou a garganta.
  verdade, liguei para falar com Gabriel.
 Ele ainda no chegou da plantao. Sou Big Sadie, a empregada. Vou deixar um recado dizendo que voc ligou.
Michelle sabia que fora um erro fazer o telefonema, e concluiu que aquela seria sua ltima chance de voltar atrs.
 Na verdade, prefiro que no diga nada. Por favor, apenas esquea que liguei. Sinto muito por t-la importunado. At logo.
 Espere um instante, querida. Acho que sei quem voc .
 Duvido.
 Bem, deixe-me ver... Aposto que  a mulher que Gabriel conheceu durante as frias.
A afirmao fez Michelle prender a respirao.
 Ele disse alguma coisa a meu respeito?  perguntou, experimentando uma estranha sensao ao imaginar isso.
A mulher deixou escapar um riso.
 Bem, no exatamente. Mas vi algumas fotos que ele trouxe da viagem. Gabe me disse que voc foi companheira em alguns passeios... ou coisa do gnero. De
qualquer forma, nunca o vi guardar tantas fotos de uma pessoa, antes.
As sobrancelhas de Michelle arquearam-se. Engraado. No se lembrava de Gabriel t-la fotografado em Acapulco... Bem, talvez apenas uma ou duas fotos. Geralmente
o via focalizando paisagens. Talvez tivesse aparecido em algumas dessas fotos. Puro acidente, concluiu.
 Oh... espere... no desligue ainda  a mulher pediu.  Acho que ouvi Gabe chegando.  Uma frao de segundo depois Big Sadie abandonou o aparelho, impedindo-a
de desligar. Ela pde ouvir claramente a empregada dizer:   para voc, Gabe.
Michelle congelou.
 Quem ?  ele perguntou.
 Aquela mulher...
 Que mulher?
 Aquela das fotos.
 Fotos?
 As fotos de suas frias.
 Oh... aquelas fotos.  Houve uma longa pausa e ento Gabriel finalmente murmurou:  Vou atender no escritrio.
O corao de Michelle s voltou a bater naquele momento.
Claro que tivera tempo para desligar, mas percebeu que aquilo a faria parecer ainda mais tola. Por isso limitou-se a respirar profundamente. Por fim o silncio do
outro lado da linha foi quebrado.
 Al.
 Gabriel?
Houve uma pausa momentnea.
 Sim?
 Aqui  Michelle. Michelle Ames...
Na verdade, era possvel que ele nem mesmo se lembrasse. O pensamento provocou-lhe um arrepio.
 Ol, Michelle  ele cumprimentou num tom impessoal.  Eu j estava comeando a pensar que nunca mais ouviria sua voz...
Ela sentia a garganta ressecada, e parecia quase impossvel pronunciar qualquer palavra.
 Talvez no tenha sido uma boa idia ligar para voc... Provavelmente seria melhor deixar meu advogado cuidar disso.
 Mas foi voc quem ligou  Gabriel murmurou.
 Bem... sim... mas...
 Mas o qu?
 Nada  Michelle respondeu, percebendo subitamente que se comportava daquela maneira tola sem motivo algum.
Afinal de contas, no pretendia dizer nada sobre o beb. Apenas ligara para conversar... para ouvir a voz de Gabriel mais uma vez. Uma ltima vez, alis.
 Escute  ele murmurou devagar  estive pensando em lhe telefonar. Na verdade, fiquei intrigado por seu advogado ainda no ter me ligado sobre... bem,
voc sabe... sobre aquela noite.
Michelle teve que respirar fundo.
 Sim,  verdade. Por isso mesmo estou ligando.  "Mentirosa."  Eu queria inform-lo de que ele no encontrou nenhum registro de casamento. Nada. Aos olhos da lei,
portanto, no existe nenhuma prova de que passamos aquela noite juntos.
 Entendo  Gabriel murmurou com hesitao.  Nesse caso, o que sugere que faamos?
 Eu no sei  ela respondeu, confusa.  O que voc acha?
 Bem, para ser sincero, creio que, se no existe nenhuma prova legal, devemos mesmo ter esquecido a idia logo que samos daquela cantina...
"Sim, ns apenas acabamos na cama. E agora tenho uma prova fsica daquela noite crescendo dentro de mim", ela pensou, amargurada.
 Acho que voc est certo. Pelo menos  o que espero  Michelle replicou friamente, tentando dominar a vertigem que a acometia.
 Eu tambm. Dessa forma, acho que podemos considerar aquele incidente uma coisa do passado.
 Isso me parece bom  ela murmurou, esforando-se para manter o controle.  De qualquer forma, se meu advogado me trouxer qualquer novidade, eu lhe informarei
imediatamente.
Por um longo momento, Gabriel permaneceu calado. Finalmente quebrou o silncio:
 Escute, agora que a situao est esclarecida, talvez voc possa assinar um acordo me eximindo de qualquer responsabilidade legal caso um documento venha a ser
encontrado em Acapulco no futuro. Tudo bem?
O corpo dela enrijeceu-se. No esperava ouvir aquilo. Mas aparentemente ele estava preocupado apenas com aspectos jurdicos, nada mais.
 Quero deixar uma coisa bem clara. No vou lhe causar mais nenhum problema, entendeu?
 Nesse caso creio que no ir se opor a assinar o documento, no ?
  bvio que no  ela replicou, irritada.
 timo. D-me o telefone de seu advogado e eu providenciarei tudo.
 Certo  Michelle concordou numa voz espremida. Murmurou o nome e o nmero de telefone do advogado e repetiu tudo, para certificar-se de que Gabriel havia entendido
bem.  Agora que estamos acertados, posso desligar?
 No precisa ficar aborrecida com esse assunto.
 No estou.
  apenas uma formalidade.
 timo. Mande seu advogado preparar o documento e eu assinarei.
 No  nada pessoal.
 Claro que no.
 Provavelmente voc teria muito mais a perder com essa histria.
 Provavelmente.
 Ento, por que estou com essa sensao...
Michelle limpou a garganta, interrompendo-o:
 No h nenhum motivo para que nos falemos de novo. De agora em diante, vamos deixar nossos advogados cuidar de tudo.
 Mas...
 Espero que seja corts o bastante para aceitar isso.
 Claro.
 Muito bom.
Entretanto, ela s desligou depois de ouvir Gabriel colocar o aparelho no gancho.
Nunca, nunca mais falaria com aquele homem. Ele a enfurecia. No merecia saber que era o pai do filho que carregava. Por isso, sentiu-se satisfeita por no haver
revelado a verdade num momento de fraqueza.
Podia at mesmo imaginar que Gabriel Lafleur a acusaria de ter ficado grvida de propsito...
O telefone tocou segundos depois, interrompendo-lhe os pensamentos. Entretanto, sentindo-se ainda abalada pela conversa que tivera, Michelle deixou a secretria
eletrnica atender.
 Michelle? Aqui  Gabriel. Sei que voc est a... escute, quero falar com voc.
O corao dela acelerou-se.
Diabos! Mas no voltaria a falar com ele nunca mais. No queria nem mesmo ouvir falar sobre Gabriel. Tambm no retornaria a ligao. Nem naquele dia, nem nunca.

CAPTULO III
Gabriel Lafleur no sabia ao certo por que ia para a Califrnia ver Michelle Ames. J haviam se passado dois meses desde aquela noite em Acapulco. E um ms desde
que recebera o inesperado telefonema dela.
Tentara encontr-la vrias vezes depois disso, mas nenhuma de suas mensagens obtivera resposta. A maneira como ela o evitava acabara por despertar-lhe suspeitas,
fazendo-o incumbir o prprio advogado de checar se havia algum documento no Mxico. Claro que isso no os aproximaria, mas Gabriel no se importava.
Na verdade, apesar de esforar-se muito, no conseguia parar de pensar nela.
As recordaes sucediam-se com uma velocidade espantosa, o que o inquietava. Principalmente porque no fazia a menor idia do motivo que o levara a interessar-se
por uma mulher como Michelle Ames.
Ao desembarcar, no aeroporto, pegou um txi direto para o endereo que obtivera na lista telefnica de San Diego. Ao chegar diante da casa, no demorou nem um pouco
para bater  porta.
Passaram-se poucos momentos antes que ela abrisse, vestindo um roupo simples de algodo rosa. Estava exatamente como ele se lembrava.
 Ol, Michelle!
No pde deixar de notar que seu corao disparara selvagemente. Coisa pouco comum para uma mera visita social, considerou.
 Gabriel Lafleur!  ela respondeu, surpresa.  O que est fazendo aqui?
 Posso entrar?
Michelle hesitou por um momento e s ento deu um passo para trs, abrindo passagem.
 Claro  disse num fio de voz.
 Cheguei numa hora inconveniente?
Os olhos dela desviaram-se momentaneamente para as roupas jogadas sobre o sof. Adiantando-se a Gabriel, andou naquela direo.
 Oh... no, est tudo bem  disse. Apanhou as peas e foi direto para o vestbulo.  Eu estava apenas arrumando um pouco a casa...
Era fcil notar que Michelle no estava inteiramente feliz por v-lo. Talvez tivesse sido melhor ligar antes de bater  porta. Pelo menos seria uma atitude mais
polida.
"O que ele est fazendo aqui, afinal?", ela pensava.
Gabriel notou que Michelle deixara cair alguma coisa no cho e adiantou-se para apanhar. Logo que se aproximou da porta na qual ela entrara, porm, notou que Michelle
virava a cabea, nervosa.
 O que foi?  ela perguntou, arqueando muito as sobrancelhas.
 Voc deixou isso cair  Gabriel murmurou, notando pela primeira vez que segurava uma pea de roupa infantil, do tipo que recm-nascidos geralmente usam. Encarou-a
com uma expresso inquiridora.  Eu no sabia que voc tinha um filho.
 No tenho nenhum filho  Michelle replicou rapidamente, tirando a roupa da mo dele.  Isso pertence a uma amiga. Eu... ahn... s vezes lavo a roupa dela para
ajudar um pouco.
 Oh...
 Voltarei num instante  ela informou, solcita.
Gabriel meneou a cabea, assentindo, antes de voltar para a sala de estar.
Enquanto Michelle cuidava das roupas, ele observou o ambiente, admirando o bom gosto da decorao. Tudo parecia muito novo... e caro. Sem dvida, Michelle era uma
mulher de classe. Mas j desconfiara disso na primeira vez em que a vira no lobby do hotel, em Acapulco.
Naquele dia ela usava um tailleur azul muito elegante, e tinha os belos cabelos loiros presos por um leno de seda. No mesmo instante Gabriel soubera que aquele
no era seu tipo predileto de mulher. Na verdade, ficara bastante surpreso, no dia seguinte, ao descobrir que Michelle era turista. Imaginara-a no Mxico a negcios,
talvez por causa das roupas caras e bem cortadas de executiva.
E l estava ele agora, parado na sala de Michelle... esperando. Nunca imaginara viver uma cena como aquela de novo. No depois do que acontecera com sua ex-mulher.
Entretanto, tudo o que fizera durante os ltimos dois meses fora pensar em Michelle Ames. Embora no quisesse admitir, a imagem feminina insistia em freqentar
seus sonhos, como uma viso angelical.
Aquilo fez com que ele se lembrasse de que era a primeira vez, desde aquela noite fatdica, que ficava perto o bastante para tocar nela. No que planejasse fazer
isso, claro. Na verdade, nem mesmo queria.
Bem, para ser franco, queria sim. Mas sabia que estaria cometendo um engano muito srio se o fizesse.
Finalmente Michelle voltou  sala.
 Sinto muito por t-lo feito esperar. Se tivesse me avisado antes, eu poderia...
 Sei disso  ele concordou, abaixando um pouco a cabea.  Devia mesmo ter ligado antes. Mas, para ser honesto, achei que no funcionaria.
 Oh  ela sussurrou.  Bem, acho que  compreensvel, principalmente porque no retornei nenhum de seus telefonemas. Gabriel sorriu.
 E por que no?
Notou que Michelle respirou fundo antes de responder:
 No sei. Acho que no vi nenhum sentido nisso.
 Entendo...
Michelle mordeu os lbios. Lbios que podiam levar Gabriel  loucura. Nossa, o que estava acontecendo com ele? Por que aquela mulher o abalava tanto?
 Veja bem... Gabriel Lafleur, concordamos que seria melhor cuidar de nossas prprias vidas...
 Exatamente.
 Bem,  o que estou tentando fazer.
 Eu tambm  Gabriel confessou.  Mais ou menos...
Droga, nem mesmo sabia ao certo o que dizer. No conseguia, alis, pensar num motivo sequer para justificar a prpria presena naquela casa!
"Ser que ele veio at aqui apenas para me ver?", Michelle se perguntava, incrdula.
Gabriel sentia o ridculo da situao. Apenas um idiota faria uma coisa daquelas. E ele, na verdade, sentia-se um idiota. Completo.
O que diabos queria daquela mulher, afinal?
Aquela era a parte mais estranha. No queria nada, absolutamente nada, a no ser que ela parasse de lhe atormentar os pensamentos.
 Certo?
Grande concluso!
 Eu estava pensando se voc aceitaria jantar comigo hoje  arriscou.
Ela franziu as sobrancelhas, como se no acreditasse nem um pouco que fora aquele o motivo que o levara at sua casa.
 Por que est aqui? Ser que fez essa viagem toda apenas para se certificar de que eu assinaria o tal documento?
 Documento? Oh... aquilo. No, no  por isso que estou aqui. Depois que falamos pelo telefone, meu advogado checou as informaes no Mxico e chegou s mesmas
concluses que o seu.
 Ele no encontrou nada, certo?
 Certo.
 Ento continuo no entendendo por que voc est aqui.
Massageando os msculos do pescoo para livrar-se parcialmente da tenso, ele suspirou.
 Para ser honesto, no fao a mnima idia. Se preferir, pode chamar isso de gesto impulsivo. No sei... mas nos ltimos tempos estou tendo uma sensao inexplicvel,
que acabou me trazendo at sua casa... talvez ande pensando muito sobre o que aconteceu naquela noite, sei l.
 Bem  Michelle murmurou, estreitando o olhar. Mordia o lbio inferior, como se estivesse amedrontada.  No consigo entend-lo muito bem.
 E eu no sei como me explicar...
Naquele momento, ela caminhou para a porta, dando uma indicao muito clara de que queria v-lo longe dali. Mas Gabriel ainda no estava pronto para partir. Algo
lhe dizia que, se ficasse um pouco mais, obteria as respostas para as perguntas que tinha no corao. Por isso, aproximou-se de Michelle.
 Eu gostaria de ir embora, mas no posso. Tenho um pressentimento muito forte e simplesmente preciso descobrir por qu.
Os olhares dos dois encontraram-se, e segundos depois ela desviou a cabea. Gabriel teve a impresso de que aquele gesto significava algo e seus olhos estreitaram-se.
 O que est escondendo?
 No estou escondendo nada  ela murmurou, com a respirao entrecortada.
 Ento por que tenho essa sensao de estar sendo trapaceado?
 No fao a menor idia.
Quebrando a tenso do momento, um assobio agudo veio dos fundos do corredor que levava para o interior da casa. Michelle quase pulou de surpresa, depois olhou para
a direo de onde viera o som.
 Eu... ahn... esqueci. Estava fervendo um pouco de gua para fazer um ch. Aceita uma xcara?
 No  Gabriel murmurou, encolhendo os ombros. Sentia-se desapontado, pois achava que segundos antes estava perto de obter algumas respostas.  Eu no bebo ch.
Mas v em frente.
Michelle parecia frustrada. Por um instante pensou em dizer algo, mas limitou-se a assentir, meneando a cabea, e em seguida partiu para a cozinha, soltando disfaradamente
um suspiro.
Gabriel seguiu-a de perto, notando que ela tremia muito. No sabia o motivo, mas apostava que estava bem perto de descobrir. Podia sentir isso.
Ela olhou por sobre o ombro, mas recusou-se a retribuir o sorriso que Gabriel lhe ofereceu. Sim, ele estava no controle da situao. Era como um predador, pronto
para saltar sobre a presa assim que aparecesse a melhor chance.
A cozinha, espaosa, era decorada em estilo ingls. Ao fundo havia uma grande janela. Gabriel aproximou-se para olhar a paisagem da cidade no vale. Finalmente colocou
as mos nos bolsos da cala jeans e voltou a virar-se para encar-la. Naquele momento notou um vidro de vitaminas na prateleira, bem acima da cabea de Michelle
e, mesmo sem saber por que, ficou intrigado.
Momentos depois observou-a servir-se de uma xcara de ch. O telefone tocou. Ela desculpou-se e foi atender em outro aposento. Obviamente no se sentia  vontade
na presena dele, pois havia um aparelho telefnico bem ao lado do balco da cozinha. Mesmo assim Gabriel pde ouvir uma parte do dilogo, embora no fosse essa
sua inteno.
 Sim... daqui a uma semana, s duas e meia. Minha consulta mensal... sim, eu me lembro... muito obrigada.  E, ao dizer isso, desligou.
O olhar de Gabriel ainda no se desviara do vidro de vitaminas, e a palavra "pr-natal" escrita em letras grandes na embalagem fez sua espinha congelar. Sem dvida
aquilo havia sido receitado por um mdico.
E pr-natal tinha apenas um significado: Michelle estava grvida.
Por trs do vidro de vitaminas, notou algumas brochuras. A que estava no topo da pilha falava sobre nutrio durante os primeiros estgios da gravidez. Subitamente,
seu corao pareceu sair de controle, tal era a velocidade da pulsao.
No podia ser verdade.
Certamente Michelle teria dito algo, se estivesse  espera de um beb... Talvez aqueles livros no fossem dela. Podiam pertencer a uma empregada... quem sabe?
"No notou que  o nome dela que est no frasco, idiota? Claro que as vitaminas e os livros so de Michelle!", Gabriel disse a si mesmo, exasperado, estendendo
a mo para apanhar o vidro.
Droga, por que era to difcil acreditar naquilo? Tudo bem. Passara apenas uma noite com Michelle, o que no significava que devia saber tudo sobre ela. Na verdade,
sentia que a conhecia menos a cada minuto.
E, para piorar as coisas, tinham feito amor enquanto ela estava grvida de outro homem. Mesmo sabendo que aquilo era tolice, Gabriel sentia-se um canalha.
Michelle devia ter lhe contado tudo!
As sobrancelhas dele arquearam-se muito. Onde diabos estava o pai daquela criana, ento? No que isso lhe dissesse respeito, claro, mas sentiu-se terrivelmente
curioso a respeito do assunto.
Principalmente porque Michelle esperava um filho desse homem misterioso.
Ela voltou  cozinha, detendo-se, apreensiva, ao ver o que Gabriel segurava.
 O que pensa que est fazendo?  disparou entre os dentes.  Me d isso j  ordenou um instante depois, praticamente arrancando o vidro da mo de
Gabriel. Seu belo rosto parecia frio como gelo.  Acho que voc j invadiu muito minha privacidade... seria melhor se fosse embora j.
Aquela atitude aguou ainda mais a curiosidade de Gabriel. Um milho de pensamentos passaram por sua mente. Sem dvida precisava de algumas respostas antes de sair
da vida daquela mulher.
 Quem  o pai?
Ela o ignorou e tornou a colocar as vitaminas na prateleira. Suas mo tremiam visivelmente.
Gabriel avanou um pouco e insistiu, sussurrando ao ouvido de Michelle:
 Perguntei quem  o pai.
 No  da sua conta  ela disparou furiosa.  Agora v embora, por favor.
O corao de Gabriel batia com violncia. Sua ex-mulher no quisera filhos, mas ele ainda desejava um herdeiro. Sabia que as probabilidades de aquela criana ser
sua eram pequenas, mas mesmo assim precisava verificar o assunto.
 Apenas diga-me o nome do pai  insistiu.
No pretendia deixar Michelle assumir o controle da situao. Visivelmente trmula, ela meneou a cabea.
 No h nenhum motivo para que eu lhe diga  balbuciou.  Eu e ele decidimos nos separar,  tudo. E, como eu j disse antes, isso no lhe diz respeito.
 Entendo  Gabriel murmurou.  E ele sabe sobre a criana?
Michelle suspirou profundamente.
 Bem... no comeo no. Mas agora j sabe de tudo.
 E ento?
 E ento o qu?
 No vai assumir a responsabilidade pelo prprio filho?
O rosto dela ficou branco como cera.
 Ele no se importa comigo ou com o beb. E acredito que seja melhor assim.
Gabriel parecia espantado.
 Como pde dormir com um homem assim?
 Acho que foi estupidez  Michelle murmurou num tom estrangulado.
 E voc o amava?
 No  ela disse, encarando-o pela primeira vez desde que voltara  cozinha.
 Quem foi que acabou com o relacionamento? Voc ou ele?
 O que  isso? Um inqurito policial?  ela perguntou. E ento, respirando profundamente, finalmente pareceu convencida de que responder s perguntas de Gabriel
era a melhor forma de livrar-se dele.  Tudo bem... digamos que foi mtuo, certo?
 Muito conveniente!
Michelle tirou o saquinho de ch da xcara. Gabriel notou que as mos dela ainda tremiam muito. No havia dvida alguma de que as recordaes do ex-amante a abalavam
bastante.
 Nosso relacionamento nunca daria certo  ela murmurou.  Eu soube disso desde o comeo, e ele tambm.
 E ento voc simplesmente decidiu ter seu filho sozinha?
 Isso mesmo.
 E pretende cri-lo sem um pai?
 Certo. Cresci sem minha me, e sobrevivi.
 Mas gostou disso?
Ela hesitou por um longo momento.
 No... no exatamente. Mas...
 Mas o qu?  Gabriel perguntou, tentando manter o interrogatrio at conseguir as respostas que procurava.
Aparentemente, ela estava determinada a levar uma vida sem marido, assim como ele no pretendia mais ter uma esposa. Podia entender isso. Claro que as razes de
ambos eram diferentes. Ele fora ferido pela traio da ex-mulher, enquanto Michelle parecia ser uma pessoa prtica... o tipo de mulher que no trocaria a prpria
carreira por nada.
Ela cruzou os braos.
 Escute, Gabriel Lafleur, voc j est comeando a abusar de minha pacincia.
Sim, provavelmente ela estava certa. Mas tambm considerava uma vergonha ver uma mulher encantadora como Michelle ser forada a criar um filho de um homem que no
a amava. Definitivamente, o mundo moderno era uma baguna sentimental. Todos queriam se divertir, mas ningum parecia disposto a arcar com as conseqncias dos
prprios atos.
Intimamente, tinha certeza de que no se comportaria daquela forma. Se o beb que Michelle carregava fosse seu, saberia exatamente o que fazer. Assumiria toda a
responsabilidade, no importava quanto isso lhe custasse.
Michelle deixou escapar um suspiro e deu um passo vacilante na direo da porta, olhando para o corredor.
 Tenho um compromisso em menos de uma hora e nem mesmo estou vestida. Sinto muito, mas vai ter que partir agora.
Gabriel arqueou as sobrancelhas. Por um motivo qualquer, desconfiava de que Michelle no tinha compromisso algum. Mas no podia forar a prpria presena. Era
hora de ir embora... pelo menos por enquanto.
 E quanto ao jantar de hoje?
 Tenho outros planos  ela respondeu.
Ele tambm duvidava daquilo. Mas, quando necessrio, era um homem muito paciente...
 E que tal um almoo amanh?
 No posso.
 Entendo. Bem, nesse caso vou ter que ficar na cidade mais tempo do que tinha planejado. Ligo mais tarde. Talvez, ento, voc j tenha conseguido encontrar algum
tempo livre...
Os dois ficaram parados diante da porta.
 Duvido  ela falou.
 No duvide.
Gabriel sorriu. Queria faz-la entender que era um osso duro de roer.
 O que quer de mim?  Michelle finalmente perguntou.
 Na verdade, no quero nada de voc. Pelo menos nada especfico. Apenas preciso me livrar dessa sensao que me diz que algo no est bem. Pensei que, vindo at
aqui, resolveria isso com facilidade. Mas parece que me enganei.
Mais uma vez ela mordiscou o lbio inferior. O corao de Gabriel continuava acelerado. Cus! Aquela mulher mexia mesmo com sua libido!
 Gostaria de poder ajud-lo  ela murmurou, encolhendo os ombros.  Mas infelizmente no posso.
Ele meneou a cabea. Talvez Michelle estivesse certa, disse a si mesmo. Provavelmente fora um erro procur-la em San Diego, afinal. Respirou profundamente.
 Sinto muito. Eu no devia ter me intrometido em sua vida desse jeito. Fui um verdadeiro idiota.
 No se preocupe com isso.
Gabriel assentiu novamente, estendendo a mo para cumpriment-la.
 Bem, ento acho que isso  um adeus... definitivo quero dizer.
Depois de uma pausa momentnea, ela retribuiu o cumprimento.
 Sim, acho que  mesmo.
Poucos segundos depois, ele cruzou a varanda e Michelle fechou a porta devagar. Gabriel ainda virou-se, para olhar a casa, contendo a respirao ao fazer isso. Depois
comeou a caminhar pela calada com ar pensativo.
Era mesmo um homem de sorte. Se Michelle Ames no fosse uma mulher independente, certamente seria capaz de lhe criar srios problemas. Podia, por exemplo, dizer
que a criana era dele e, sob aquelas circunstncias, convenc-lo disso com muita facilidade.
Sim, era um homem de sorte. No corria nenhum perigo.
Ento por que no se sentia bem? Por que no ntimo continuava cismado com aquela situao?
Concluiu que ainda precisava de algumas respostas. E no sairia de San Diego antes de consegui-las.
Tremendo dos ps  cabea, Michelle finalmente soltou a respirao e encostou-se na parede. Nunca, em toda a sua vida, sentira-se to nervosa. Mas felizmente Gabriel
j fora embora.
Ele chegara muito perto da verdade. Perigosamente perto, alis. Obrigara-a a pensar muito rpido para inventar aquela histria sobre um ex-amante.
S esperava que ele tivesse acreditado.
Aparentemente, conseguira engan-lo.
Sim, claro que Gabriel acreditara. Alm disso, ela agira com frieza suficiente para demov-lo de qualquer tentativa de aproximao.
No precisava dele, de qualquer maneira. No precisava de ningum. Era absolutamente capaz de criar aquela criana e continuar sua carreira. J vira muitas mulheres
fazendo o mesmo. No podia ser to difcil assim.
Tinha certeza disso.
Bem... para ser absolutamente franca, no estava to certa. Haveria vrios problemas. Por exemplo, dentro de pouco tempo teria que se mudar para um lugar mais espaoso.
Um lugar com um quintal, onde a criana pudesse brincar quando ficasse mais velha. E tambm teria que encontrar uma bab confivel, o que no era uma tarefa nada
fcil. E no fundo ainda achava inacreditvel a idia de se tornar me.
Me do filho de Gabriel Lafleur.
Mas o pai no fazia a menor diferena. Aquele beb seria apenas dela, e no se sentia nem um pouco culpada por no dizer nada a Gabriel. Afinal de contas, pensou,
tinha seus direitos e, como ele, no queria nenhum problema.
S no entendia por que, levando tudo aquilo em considerao, uma voz interior cismava em continuar alertando para um possvel futuro solitrio. Por que uma parte
dela continuava querendo chamar aquele homem de volta?
Bem, talvez porque essa fosse sua parte fraca, um aspecto vulnervel e feminino que Michelle fazia questo de esconder do resto do mundo... e de si mesma. O pai
sempre ridicularizara as mulheres como seres incapazes, que precisavam da ajuda dos homens para sobreviver no competitivo mundo dos negcios. Aquilo sem dvida se
refletira em sua personalidade.
Mesmo assim, esperava ter feito a coisa certa ao no dizer nada sobre a criana. No estava sendo leviana nem cruel. Aquela gravidez mudara radicalmente sua vida,
e tudo ainda estava muito confuso em sua mente. As prioridades anteriores haviam sido substitudas abruptamente, e Michelle tentava fazer o melhor possvel para
sobreviver quele perodo... e aos que viriam.
Alm disso, o que Gabriel poderia ter feito se soubesse sobre o beb? Oferecido dinheiro, talvez?
Ela no precisava de dinheiro.
Amor?
De jeito nenhum. Ele deixara bem clara sua posio quanto a esse assunto quando os dois estavam no Mxico. No queria uma esposa, repetira vrias vezes. E Michelle
pensava da mesma forma. Queria progredir na carreira. Aquela era a coisa mais importante. De uma forma ou de outra conseguiria encaixar os cuidados com a criana
dentro de sua agenda lotada. Mas... um marido? No. De jeito nenhum.
E no importava o fato de Gabriel Lafleur ter sido o primeiro homem que a interessara, depois de muito tempo. Precisava lembrar que aquele relacionamento no fora
mais do que um caso passageiro.
O futuro do beb seria muito mais seguro ali mesmo, em San Diego.

CAPTULO IV
Gabriel caminhava muito devagar sob os raios do sol poente. Pensava no ser possvel suportar aquela crescente sensao de vazio.
A criana no era dele, dizia a si mesmo em curtos intervalos, esperando que aquilo o ajudasse a colocar os pensamentos em ordem.
Mas isso no acontecia. Nada podia ajudar a combater aquela angstia. A histria de Michelle fazia sentido, e por isso no havia razo para continuar desconfiando
de que algo no estava certo.
Queria acreditar nela, mas no ntimo era difcil faz-lo, mesmo que no soubesse ao certo por qu.
Continuava achando que Michelle teria lhe dito a verdade se estivesse grvida no Mxico. Droga, por que no se lembrara de olhar a data no rtulo das vitaminas?
Aquilo podia ter lhe dado outra pista...
Respirou fundo e deixou o ar escapar lentamente.
"Ora, para o inferno", pensou.
Michelle o queria longe. Portanto, era o que faria, certo? Certo. Gabriel franziu as sobrancelhas.
"V em frente, Lafleur, e afaste-se logo dessa mulher".
Subitamente, porm, ele parou na calada e permaneceu imvel por alguns instantes. Seus lbios estavam muito secos e suas mos tremiam.
No podia ir embora. Havia coisas que precisava saber. Num gesto abrupto, girou nos calcanhares e comeou a voltar para a casa de Michelle.
Dessa vez arrancaria a verdade dela, no importava quanto lhe custasse. E no iria embora sem descobrir o que queria.
Michelle assustou-se ao ouvir a violenta batida  sua porta. Estranhamente, porm, ficou mais calma ao ouvir a voz de Gabriel. Sem pensar duas vezes, abriu.
 O que houve?
Ele entrou no apartamento sem pedir licena.
 Quero ver aquele vidro de vitaminas  disse, dirigindo-se a passos largos para a cozinha.
Com a pulsao acelerada, Michelle disparou e colocou-se no caminho.
 Voc no tem o direito de invadir minha casa desse jeito!
 Ora, no diga tolices. Ns dormimos juntos no Mxico, lembra? Isso me d todo o direito.
 Que absurdo!  ela argumentou, estendendo os braos para bloquear o caminho com mais eficincia.  Saia j de minha casa.
Cruzando os braos diante do peito, ele continuou a encar-la.
 No vou fazer isso. Portanto, acho melhor me dar logo as respostas que procuro. Porque, francamente, voc ainda no conseguiu me convencer.  Houve uma pequena
pausa.  Na verdade, vamos esquecer as formalidades e ir direto ao assunto. Essa criana  minha?
Michelle levou a mo ao peito, comprimindo-o. Seus joelhos tremiam tanto que temeu cair.
 Oh, no! Quem lhe contou isso? Ele deu um passo adiante.
 Ento a criana  mesmo minha? Felizmente Michelle conseguira recuperar parte da compostura. Apenas parte, todavia.
 No... no, no foi isso que eu quis dizer. Os olhos dele se estreitaram.
 O que exatamente voc quis dizer?
 A criana  minha!
 Isso no responde  minha pergunta e voc sabe muito bem. Quem  o pai?
 No  da sua conta.
 Claro que , principalmente considerando o fato de que posso ser o pai. Est grvida h quantas semanas?
 Como eu disse  ela comentou secamente , no  da sua conta.
 Voc ainda no estava grvida no Mxico, no ?
 No interessa.
 Tenho todo o direito de saber se essa criana  minha.
 Voc no tem direito algum de se intrometer em minha vida.
 Se queria manter a privacidade, ento no devia ter se comportado daquele jeito em Acapulco.
Ela suspirou com impacincia.
 Como ousa...
 Como voc ousa pensar que tem o direito de esconder uma coisa assim? Sou o pai dessa criana?
Os nervos de Michelle estavam em frangalhos. Sabia que no suportaria a presso. Era apenas uma questo de tempo antes de perder o controle, e essa era a ltima
coisa que desejava. Lgrimas insinuaram-se nos olhos dela.
 Por que no pode simplesmente esquecer esse assunto?
 Porque no costumo agir assim  ele replicou, suavizando o tom da voz.  Tudo o que tem a fazer  me dizer que estou errado. V em frente, diga-me que no sou
o pai dessa criana!
 E... se fosse?
Ele deixou escapar um suspiro.
 Ento  mesmo meu filho, no ?
Michelle estava acuada. Seu corao tinha disparado, sentia-se muito vulnervel. No podia mais continuar mentindo.
 Sim  finalmente sussurrou, com a voz embargada pela emoo.
Notou que Gabriel acusou o golpe ao ouvi-la confessar a verdade. Incapaz de encar-lo, fechou os olhos e tentou recobrar o autocontrole.
S voltou a abri-los mais tarde, quando j se sentia forte o bastante para enfrentar a situao. Gabriel continuava a contempl-la fixamente.
 Agora voc j sabe de tudo. Ento gostaria que fosse embora.
 O qu?
 Voc me ouviu. Apenas v... por favor. A expresso dele era estupefata.
 No pode estar falando srio!
 Acontece que estou.
Ele segurou-a levemente pelo brao.
 Deve estar louca se acha que vou sair por aquela porta e sumir, sabendo que est esperando um filho meu.
 Por que no? Muitos homens fazem isso.
 Eu no.
 No precisa ser galante. Estamos na ltima dcada do sculo vinte. Como eu j disse, pode esquecer o assunto. Vou cuidar sozinha dessa criana.
O olhar sombrio de Gabriel a examinou por um instante, depois se desviou para o ventre que carregava seu filho.
 De jeito nenhum. Sou to responsvel pelo que aconteceu quanto voc. E no apenas isso... eu quero esse beb.
Michelle sentiu um aperto no peito. Sabia que, se descobrisse a verdade, Gabriel certamente lhe causaria problemas.
 O que quer dizer?
 A criana vai ser minha herdeira  ele afirmou.
 Mas em Acapulco voc disse que...
 Eu disse um monte de coisas. Voc tambm. Se me lembro corretamente, falou que ter filhos no fazia parte de seus planos.
 E voc, Gabriel Lafleur, me assegurou que no pretendia se casar de novo.
 Nunca planejei isso  ele comentou, passando os dedos nos cabelos, num gesto de frustrao.  Mas tambm nunca imaginei que voc poderia ficar grvida.
Erguendo o queixo com imponncia, Michelle encarou-o.
 Bem, posso garantir que eu tampouco.
 Certo  Gabriel murmurou, depois de deixar escapar um longo suspiro.  Vamos parar de discutir e encarar os fatos. Aparentemente nenhum de ns esperava que isso
acontecesse. Mas aconteceu, e portanto, precisamos assumir a responsabilidade sobre a criana.
 Isso  exatamente o que estou fazendo  Michelle replicou, desafiadora.  E no preciso da ajuda de ningum. Nem da sua.
 Ser que poderamos nos sentar e discutir calmamente o assunto, como dois adultos?
Michelle estava nervosa, mas ao mesmo tempo, paradoxalmente, sentia-se aliviada por ter contado a verdade. Era como se tivesse tirado um fardo dos ombros. Durante
os dois ltimos meses, achara terrvel manter aquele segredo. Apenas ela e o mdico sabiam sobre a gravidez. Por outro lado, agora teria que enfrentar as dificuldades
que previra.
 Por favor  ele pediu novamente.  No podemos nos sentar?
Sem se preocupar em responder, ela acomodou-se numa cadeira. Gabriel imitou-a, posicionando-se no sof em frente.
 Bem  murmurou, iniciando a conversa num tom de hesitao  no posso ignorar o fato de que est carregando um filho meu. Sei que nenhum de ns planejou isso,
mas no vejo outra alternativa a no ser fazer as coisas da maneira certa. No podemos mais levar nossa relao na brincadeira, como fizemos no Mxico. Dessa vez
teremos que nos casar de verdade, aqui nos Estados Unidos.
 Isso  ridculo! No precisamos nos casar apenas porque estou grvida. Alm disso, foi voc quem disse que no queria fazer isso, lembra-se?
 Voc tambm disse que no queria um marido. Mas agora a situao  diferente. Est grvida, e o casamento  a melhor soluo.
 Para voc, talvez. No para mim.
 Escute, quero que a criana tenha meu nome... legalmente.  muito importante.
 Oh... bem... mas uma hora atrs voc nem sabia da existncia do beb. E agora, subitamente,  to importante assim que ele tenha seu nome?
 Exatamente.
Michelle franziu as sobrancelhas.
 Por que no se preocupou com as conseqncias naquela noite, em Acapulco?
 Pelo mesmo motivo que a levou a no se preocupar, acho. Eu estava bbado e agi estupidamente. Ns dois cometemos um erro.
 Isso no  desculpa.
 Voc est certa. No  mesmo. No existe desculpa para o que fizemos. Mas no  justo que a criana que geramos naquela noite tenha de pagar por isso.
 No posso acreditar que esse beb seja to importante para voc!  ela exclamou.
As feies de Gabriel permaneceram inalteradas.
 Acho melhor comear a acreditar. Na verdade, estou preparado para fazer qualquer coisa para que esse beb tenha meu nome. E, se isso significar casar outra vez,
tudo bem.
 Acontece que no quero um marido.
 Certo, eu tambm no quero uma esposa. Mas esse  o problema. Ao contrrio de voc, importo-me com a criana a ponto de abrir mo de meus desejos pessoais.
O rosto dela ruborizou-se. As palavras de Gabriel pareciam acus-la de egosmo.
 No tenho que ouvir isso  defendeu-se. Mas, a despeito da bravata, sentia-se terrivelmente mal.
"Oh, grande!", pensou. "Agora Gabriel tenta me manipular... e o pior  que est conseguindo."
 Sei que minha presena aqui foi um choque para voc  ele disse com um trao de compaixo na voz.  Obviamente vai precisar de algum tempo para colocar seus sentimentos
em ordem. Por que simplesmente no passamos algum tempo sozinhos e...
 V embora e no volte nunca mais!  Michelle exclamou com determinao.
Gabriel limitou-se a sorrir.
 Vou voltar, pode ter certeza disso. Michelle arqueou as sobrancelhas.
 O que preciso fazer para me livrar de voc?
  muito simples. Quero meu filho. Ela encarou-o, aturdida.
 No pode estar pensando que eu simplesmente vou lhe dar a criana, no ?
 Infelizmente, sei que isso seria pedir demais.
 Quanta sensibilidade de sua parte!  ela replicou com sarcasmo.
 Veja bem, a soluo mais simples seria nos casar e passar a viver em minha fazenda, em Louisiana.
Foi necessrio um grande esforo para que Michelle no gargalhasse.
 Deve estar brincando! Eu tenho uma carreira, sabia? E no pretendo esquec-la de uma hora para outra.
 E por que voc precisaria fazer isso? Pode construir sua vida profissional em qualquer lugar...
Acontece que no quero "qualquer lugar". Quero fazer minha carreira aqui, em San Diego.
 Por acaso est trabalhando agora?
A pergunta atingiu Michelle como um soco. Se tudo corresse bem, receberia uma resposta sobre emprego na semana seguinte. Mas naquele momento estava... bem, estava
desempregada.
 Ahn... No momento, no  respondeu, mordiscando o lbio inferior num gesto nervoso.
 Ento no entendo o que teria a perder se recomeasse sua carreira em Louisiana  Gabriel murmurou, levantando-se devagar.  Bem, sei que voc disse ter planos
para hoje  noite. Mas, considerando as circunstncias, cancele tudo e venha jantar comigo.
Por algum motivo, Michelle imitou o gesto dele e deixou escapar um suspiro. Sentia-se aterrorizada com a forma como Gabriel parecia tomar conta da situao.
 Eu no tinha nenhum plano para hoje  ela admitiu, resignando-se com a constatao de que no adiantaria mais mentir.
Sua vida organizada e metdica parecia ter desmoronado de um momento para outro, e ela simplesmente no fora capaz de fazer nada para evitar isso.
 Tudo bem, vou jantar com voc  murmurou finalmente.
Os olhos dele estreitaram-se um pouco.
 timo  murmurou.  Que tal s oito horas?
 Perfeito  Michelle concordou.
Os olhos masculinos subitamente se fixaram na boca de Michelle, com uma avidez que quase a fez perder o flego.
 Sabe... eu estava pensando em seus lbios...
 Meus lbios?  ela disse, confusa.
 Sim  Gabriel confirmou, usando o dedo indicador para delinear-lhes o traado. Era um gesto audacioso, mas ele sempre agira daquele jeito. Michelle podia afastar
o dedo, mas manteve-se imvel.  Algum j lhe disse que voc tem uma boca perfeita?
Sob aquele olhar, mais intenso do que nunca, ela sentiu que comeava a tremer incontrolavelmente.
 No que eu me lembre...
 Claro. Mesmo que quisesse, no conseguiria lembrar de nada naquele momento. So sensuais e delicados. Notei isso na primeira vez que a vi.
 Oh!
 E to carnudos...
 Verdade?  Os joelhos dela tremiam como gelia.
 Exatamente. Beijveis, eu diria  ele murmurou, avanando um pouco.
O rosto de Michelle ergueu-se automaticamente para encarar o dele. "O que voc est fazendo?", ela ouvia uma voz ntima perguntar. No fazia a menor idia. Mas tambm
no era capaz de se conter. Na verdade, nem mesmo tentou.
E ento ele a beijou, suavemente no comeo, depois a envolveu com um abrao apertado. Em uma frao de segundo parecia que todo o seu corpo estava sendo consumido
por chamas. Exatamente como no Mxico. Num instante encontrava-se sob controle, e no seguinte entregara-se a Gabriel sem reservas.
As mos fortes subitamente comearam a acarici-la inteira, tocando-a nos seios, nas costas, puxando-a ao encontro do corpo msculo e viril. A rendio de Michelle,
inevitvel, era apenas uma questo de tempo.
Foi quando a campainha tocou, trazendo os dois de volta  realidade. Ainda segurando-a nos braos, Gabriel a encarou como se no acreditasse no que acabara de fazer.
Inebriada, ela piscou e respirou fundo, para conseguir raciocinar.
 Est esperando algum?  ele perguntou, curioso.
 No...  ela balbuciou, meneando a cabea desajeitadamente.  Provavelmente  meu pai. Ele tambm  do tipo que costuma fazer visitas sem telefonar antes  emendou
depois de um suspiro.
 Entendo.
A campainha tocou outra vez. Michelle franziu as sobrancelhas.
 Acho que no  preciso dizer que ele  um homem impaciente.
Gabriel sorriu com franqueza.
 Posso apostar nisso.
 Oua  ela murmurou, ansiosa  meu pai ainda no sabe do beb, entendeu?
O rosto dele expressou espanto.
 Verdade? E existe algum motivo em especial para isso?
 S um. Ele nunca aprovaria.
 Ora, voc  uma mulher adulta. Tem o direito de viver sua vida como quiser.
 Diga isso a meu pai, ento.
 Talvez eu faa isso  Gabriel murmurou instantes depois.
 Por favor, no diga nada sobre nosso filho. Prefiro fazer isso sozinha, quando estiver pronta.
 Tudo bem  ele concordou.  No vou dizer nada.
Michelle respirou fundo outra vez, e s ento se virou para atender a porta. Logo depois um homem robusto entrou, passando como um raio.
 Certo, Michelle  ele disse num tom de voz imperioso  j agentei o bastante. Faz dois meses que abandonou seu emprego. Isso  insubordinao. Chegou a hora
de parar com essa bobagem de estar zangada comigo e voltar ao trabalho.  Naquele momento, olhando por sobre o ombro da filha, Sylvan finalmente percebeu a presena
de Gabriel.  Quem  voc?  perguntou.
 Gabriel Lafleur.
 Nunca o vi, no ?  o homem perguntou num tom impessoal.
 No, senhor. Mas creio que isso vai acontecer com muita freqncia de agora em diante.
Os olhos de Sylvan Ames arregalaram-se.
 Mesmo? E ser que posso perguntar por qu?
 Porque sua filha e eu nos casamos no Mxico h dois meses, e agora vim para lev-la comigo.
Michelle teve que prender a respirao diante da audcia das palavras que ouvira. O que Gabriel estava tentando fazer? Deix-la completamente maluca?
 Isso  um absurdo!  Sylvan exclamou.  Michelle nunca faria uma coisa irresponsvel como essa.
 Temo que esteja errado, senhor. Ns nos casamos, legalmente. No foi mesmo, Michelle?
Naquele momento, os olhos de Sylvan fixaram-se na filha.
 Isso  uma piada? Ainda est zangada comigo e por isso quer me punir, no ?
 Errado  Gabriel interrompeu antes que ela pudesse responder.
 Posso explicar tudo  Michelle balbuciou um segundo depois.
 Por que no faz isso, querida? V em frente e explique tudo para seu pai  disse Gabriel com um sorriso nos lbios. Fez uma pausa, depois prosseguiu:  E estou
me referindo a tudo mesmo.
Michelle entendeu de imediato. Ele a usava outra vez, disposto a conseguir o que queria.
 Bem... ns no somos exatamente casados. Ou, pelo menos, no temos certeza absoluta sobre o assunto.
 Que diabos isso significa?  Sylvan Ames explodiu, com uma expresso furiosa.
 Bem, voc sabe, ns bebemos demais naquela noite e...
 Voc se embriagou com um homem que mal conhecia? Que tipo de idiota , Michelle?
 Ns no ramos exatamente estranhos, papai  ela tentou explicar. Sabia que no estava se saindo muito bem, e notou que o rosto de Sylvan ficava mais lvido a
cada instante.  De qualquer forma, acordamos juntos na manh seguinte... mas no conseguimos encontrar a certido.
Ele estava to furioso que mal podia respirar.
 Est me dizendo que dormiu com ele?
 Ns cometemos um erro.
Seguiu-se um longo e pesado silncio, durante o qual o homem encarou fixamente a filha.
 Bem, ento, se no existe certido, creio que no existe nenhum casamento. Vamos esquecer esse incidente. Mas ainda no entendo por que est se arriscando a
destruir toda a sua carreira. Realmente, anda se comportando como uma... irresponsvel!
Michelle teve que lutar para conter as lgrimas. A falta de f do pai em sua competncia, e at mesmo em sua sanidade, a feriu profundamente. Passara toda a vida
tentando agrad-lo, mas Sylvan Ames nunca ficava satisfeito.
 Tarde demais, papai. Vou ter um filho  ela ouviu-se dizendo num fio de voz.
 O qu?
Subitamente, os braos de Gabriel envolveram-na pelos ombros.
 O senhor ouviu. Ela vai ter um filho. Meu filho.
O rosto de Sylvan ficou escarlate.
 Bem, parece que Michelle realmente conseguiu estragar a prpria vida. Nunca mais poder seguir uma carreira depois disso.
 Nada disso  ela retrucou, na defensiva.  Posso muito bem ter o beb e continuar trabalhando.
 Voc  mesmo ingnua, hein? Acha que  muito fcil criar uma criana? No tem a mnima idia dos sacrifcios que tive que fazer por voc. Nunca conseguir educar
seu filho sozinha.
 Ela no vai ter que fazer nada sozinha  Gabriel interveio, intrometendo-se na discusso entre pai e filha.  Planejo ajudar em tudo o que for possvel. Afinal
de contas, essa criana  minha tambm.
Sylvan Ames encarou-o com desprezo, desviando o olhar.
 Escreva minhas palavras, Michelle. Voc est cometendo um grande erro, e posso apostar que um dia vai se arrepender disso.
 Sinto muito que encare a situao desse jeito, Sr. Ames  Gabriel retrucou com firmeza.
Erguendo a cabea com imponncia e olhando longamente para os dois, Sylvan girou sobre os calcanhares e partiu sem dizer nada.
Ferida por dentro, Michelle observou-o se afastar. Sentia uma dor intensa, porque, a despeito das palavras duras que seu pai dissera, sabia intimamente que ainda
o amava.

CAPTULO V
Gabriel fechou a porta s costas do pai de Michelle e franziu as sobrancelhas.
 Nossa, ele sempre age desse jeito? Ela meneou a cabea, assentindo.
 Sim, infelizmente.
 O que aconteceu com sua me?
 Morreu logo depois que nasci. Descuidou-se com uma gripe e acabou apanhando pneumonia. A gravidez a debilitou muito, e seu corpo no teve foras para resistir.
 Sinto muito.
 Eu tambm.
 Meus pais tambm j morreram. Mame num acidente de carro, e papai dois anos depois. O mdico dele me disse que foi infeco respiratria, mas pessoalmente, acho
que ele morreu de solido. Os dois eram muito ligados... De qualquer maneira, tudo isso aconteceu h dezesseis anos. Eu tinha apenas dezenove anos na poca.
 Pelo menos os dois estavam vivos enquanto voc crescia  Michelle argumentou, comeando a entender o comportamento arredio de Gabriel.
 Sim  ele murmurou, sorrindo com amargura.  Eles sempre estavam a meu lado.  Ento a encarou fixamente.  Quanto tempo voc vai demorar para arrumar suas coisas
e vir comigo?
Os olhos de Michelle arregalaram-se, de espanto.
 Eu no concordei em ir embora com voc.
 Quer goste ou no, ainda h uma chance de sermos realmente marido e mulher. E, alm disso, o mal j est feito. Dormimos juntos e voc est grvida. Agora ns
dois temos que nos comportar com responsabilidade, pelo bem do beb. Tenho certeza de que voc vai concordar com isso.
 Bem... sim... claro, colocando dessa forma, sim.
 No concordei muito com o que seu pai disse, exceto num aspecto. No  nada fcil criar uma criana, principalmente sozinha. Mais cedo ou mais tarde algum acabaria
sofrendo. E eu simplesmente no posso aceitar que esse beb sofra um dia.
As sobrancelhas de Michelle arquearam-se.
 Eu nunca deixaria isso acontecer!
 Com tantas preocupaes na mente, talvez voc nem percebesse isso.
 Pretendo ser uma boa me.
 Tenho certeza que sim. Mas o aspecto principal da questo  que seria muito melhor, para a criana, crescer ao lado do pai e da me.
A expresso de Michelle era de espanto.
 Sabe quanto suas idias sobre famlia so antiquadas?
 Sabe que no me incomodo nem um pouco com isso?  ele replicou, colocando as mos na cintura.  Seja como for, prefiro viver de acordo com meus princpios...
antiquados ou no.
Michelle encarou-o, pensativa. Talvez fosse mesmo uma estupidez achar que seria possvel cuidar de tudo sozinha. Com sua falta de experincia, provavelmente seria
uma pssima me. Gabriel e Sylvan podiam estar certos, afinal. Devia existir um motivo muito inteligente para que a natureza criasse homens e mulheres...
Subitamente Gabriel estendeu a mo e ergueu o queixo dela, forando-a gentilmente a encar-lo.
 E no importa o que voc possa dizer  murmurou com voz rouca  sabe muito bem que dividir esse filho comigo  a deciso mais acertada.
A teimosia de Michelle pareceu evaporar-se num passe de mgica. Quando Gabriel a olhava daquela forma, parecia ter um poder misterioso sobre ela.
 No sei o que fazer...
 Ento venha comigo, e criaremos nosso filho juntos. Se  uma carreira que voc quer, minha empregada ficar mais do que feliz por poder trabalhar como bab. Essa
criana merece ter os pais sempre a seu lado.
 Mas voc est me propondo casamento! Um compromisso que nenhum de ns queria assumir, no comeo.
Gabriel encolheu os ombros.
 Acho que acabei de queimar minha lngua.  Um sorriso insinuou-se timidamente em seus lbios.  Mas, para dizer a verdade, estou muito feliz que tudo isso tenha
acontecido.
 Ainda bem que se sente dessa forma  Michelle murmurou secamente.  S queria poder dizer o mesmo.
 Hei! No estou to seguro assim, mas tenho certeza que mesmo sem querer tirei a sorte grande.
 Est falando do beb, claro  ela disse, acreditando que seu corao batia mais rpido sem motivo. Certamente no se julgava a "sorte"  qual Gabriel se referia.
 Exatamente.
Em seguida, aproximou-se e segurou-a pelos ombros.
 Oua, a palavra final ser sua. Mas lembre-se que, se disser no, algum vai acabar sofrendo. Ou ns... ou nosso filho. O que prefere?
Michelle gemeu. Cus, era muito difcil tomar aquela deciso. Ele estava certo, algum precisava se sacrificar por causa daquela noite de paixo. Na verdade, chegava
at mesmo a odi-lo naquele instante por estar to certo...
 Tudo bem, Gabriel Lafleur  concordou, exasperada.  Voc venceu. Da forma como colocou as coisas, acho que no tenho mesmo outra opo. Vou com voc para Louisiana.
E me casarei... novamente, se isso for mesmo necessrio.
 Eu acho que ser  ele assegurou.
 Demora muito tempo para uma criana amadurecer, voc sabe...
 Voc estar bastante ocupada com sua carreira. O tempo vai passar depressa.
"Grande consolo", Michelle pensou.
 Se as coisas no funcionarem direito...
 Vo funcionar  Gabriel murmurou.
 Como pode ter tanta certeza?
Ele encolheu os ombros.
 Por que seria diferente? No teremos que brigar, como a maior parte dos casais. Voc vai ter sua vida... e eu a minha.
 E como... voc sabe... como vamos viver?
Mais uma vez Gabriel encolheu os ombros.
 Existem trs grandes quartos na minha casa. Um para mim, outro para voc e o terceiro para o beb... se  a isso que est se referindo.
Por um instante ela se manteve calada, com uma expresso pensativa.
 Sim, acho que pode funcionar... E qual  a cidade grande mais prxima da fazenda?
 Voc pode escolher entre Baton Rouge e Lafayette. Ambas tm boas oportunidades de emprego.
 timo  Michelle disse, voltando a respirar profundamente.
Por algum motivo, a idia de passar os prximos vinte anos como mulher de Gabriel Lafleur a espantava.
Talvez fosse tolice, dizia a si mesma. No mnimo, a convivncia ntima com os rompantes do pai a fizera desacreditar um pouco dos homens. Poderia cuidar de Gabriel.
Assim que recuperasse a calma, isso no representaria nenhum problema.
 Escute  ele interrompeu-lhe os pensamentos temos que lembrar constantemente que a criana  nossa nica preocupao.
 Fique tranqilo. No vou me esquecer.
 Ento  Gabriel continuou, sorrindo mais uma vez  quando podemos partir?
 Amanh pela manh seria cedo demais?  ela murmurou, pensativa.
 Por que adiar? J que sua vida se transformara numa confuso, melhor ajeitar as coisas logo.
 Hei, isso seria timo!  ele exclamou, aceitando incondicionalmente a sugesto.  Vou ligar hoje mesmo para o aeroporto e conseguir as passagens.  Logo depois
respirou fundo, tentando se acalmar.  Ento estamos de acordo?  perguntou, ansioso.
 Sim  ela finalmente assentiu, passado um momento de hesitao.  De acordo.
Ele sorriu.
 Que maravilha! Finalmente vou ter um filho... meu herdeiro!
"Sem mencionar uma esposa", Michelle lembrou mentalmente.
Mas obviamente Gabriel pensava apenas no beb... Aquele homem sabia mesmo como faz-la sentir-se um zero  esquerda.
No dia seguinte, Michelle virou-se na escada do avio para olhar San Diego pela ltima vez. Gabriel, que a seguia de perto, acompanhou-a at a poltrona, na primeira
classe.
Ela tentara falar com o pai logo cedo, naquela manh, mas Sylvan ainda estava zangado e recusara-se a atender. Mesmo assim, deixara um recado com a secretria,
informando o horrio do vo que a levaria para Louisiana, caso ele resolvesse se despedir.
Mas Sylvan Ames no fizera isso. De certa forma, aquilo a feria ainda mais. Era seu pai, afinal de contas. Gostaria muito de saber que ele seria capaz de colocar
o orgulho de lado numa situao daquelas. "Mas, aparentemente, para papai o orgulho  tudo..."
Perdida naqueles pensamentos, Michelle virou-se para a janela do avio e observou a cidade diminuir de tamanho,  medida que o aparelho subia. Instantes depois,
porm, comeou a sentir o estmago revolver-se furiosamente. Droga. Nunca se sentira enjoada em avies. Provavelmente era um efeito causado pela gravidez.
Tentou se recompor respirando profundamente, e olhando de relance notou que Gabriel estava inteiramente entretido, lendo uma revista. A nusea parecia vir em ondas,
e crescia mais e mais a cada momento. Como resultado, seu rosto ficou muito plido. Precisava encontrar logo um daqueles saquinhos que eram fornecidos nos avies...
Gabriel virou-se subitamente, querendo dizer-lhe algo. Mas, ao v-la, fixou-lhe o olhar no rosto e murmurou, espantado:
 Hei, voc est bem?
Ela meneou a cabea, assentindo, ao mesmo tempo em que continuava a respirar fundo e a procurar pelo saquinho, na bolsa do assento da frente.
 Pois parece doente  ele insistiu. Michelle encarou-o, desanimada.
 Estou mesmo  admitiu.
Gabriel pareceu ficar em pnico por um momento. Depois recuperou a presena de esprito e chamou uma aeromoa com um gesto enftico.
 O que foi, senhor?  a garota atendeu logo em seguida.
  que... ahn... minha mulher est enjoada.
 Entendo  a moa disse sorrindo, desviando a ateno para Michelle.
Em seguida tomou conta da situao com percia, ajudando-a a livrar-se do cinto e a ir at o pequeno banheiro no fundo do corredor.
Passou-se algum tempo antes que Michelle se recuperasse totalmente. Ento a aeromoa sugeriu-lhe que se sentasse numa poltrona ao lado do recinto da tripulao,
enquanto providenciava um remdio contra enjo.
Ela ainda estava sentada l quando Gabriel apareceu.
 Pensei que voc no fosse voltar nunca  ele disse.  O que aconteceu?
Michelle arqueou as sobrancelhas.
 Enjo.
Gabriel repetiu-lhe o gesto.
 Oh, isso  pssimo, no ?
 Pode apostar que sim  ela replicou num fio de voz.
 Ser que posso fazer algo por voc?
 No.
O rosto dele estava branco como cera..
 Tem... certeza?
 Ora, pare de se preocupar!  ela disse, impaciente.  O beb est bem.
 Sim... bem, que bom. E voc?
 Horrvel.
Atabalhoadamente, Gabriel procurou por algo nos bolsos.
 Quer uma bala de menta?
Uma violenta onda de nusea a acometeu.
 Acho que no.
 Tem certeza?  ele murmurou, sorrindo de forma desajeitada.
 Sim.
 Certo. Eu apenas estava tentando ajudar.
 Obrigada, de qualquer maneira.  Michelle forou-se a retribuir o sorriso.  Agora acho que vou ter que voltar para aquele banheiro imediatamente...
Quando a nusea finalmente passou, vrios minutos mais tarde, Michelle comeou a sentir-se um ser humano outra vez. Saiu do banheiro lentamente, notando que Gabriel
a esperara ao lado da porta.
 Oi  ele disse, encarando-a com curiosidade.  Est melhor agora?
 Melhor, ainda bem. Acho que j posso voltar para minha poltrona.
A aeromoa, que apareceu justamente naquele instante, olhou-a com alvio.
 Eu disse a seu marido para esper-la sentado na poltrona, mas ele no quis me ouvir  a moa revelou, sorrindo.  Mas, pensando bem,  muito gentil um
homem se preocupar tanto com a esposa grvida.
O fato de a moa saber sobre a gravidez espantou Michelle. , claro, havia apenas uma pessoa que podia ter lhe contado. Gabriel representava muito bem o papel de
marido preocupado, ela pensou com escrnio. Podia at ganhar um Oscar por aquela atuao!
 Contei porque fiquei preocupado  ele murmurou, como se percebesse que devia uma explicao.  Afinal de contas, voc ficou tanto tempo trancada a...
Michelle olhou-o com desconfiana.
  mesmo, ?
 Ora, vamos l  ele disse um instante depois.  Voc provavelmente deve estar querendo ficar um pouco sentada.  Ao dizer aquilo, conduziu-a de volta  poltrona.
O tempo passou. Serviram o almoo logo depois e ambos comeram em silncio. Gabriel parecia perdido em pensamentos, e Michelle podia notar nele uma transformao
estranha. Talvez estivesse considerando os vrios aspectos que envolviam o futuro relacionamento dos dois. Lev-la para casa provavelmente no fazia parte de seus
planos. Agia dessa maneira apenas porque Michelle carregava seu filho. E era no beb, apenas no beb, que os pensamentos de Gabriel deviam estar.
Bem, mas no havia nenhuma diferena, para ela. Tambm estava fazendo aquilo apenas por causa da criana.
Durante o resto da viagem, Gabriel voltou a ler a revista que comprara no aeroporto, devorando em silncio um artigo aps outro, enquanto Michelle contentou-se
em olhar pela janela com ar perdido.
O piloto anunciou pelo intercomunicador que em breve estariam pousando no aeroporto de Nova Orleans. Ajeitando-se na cadeira, Gabriel finalmente fechou a revista
e massageou o rosto com os dedos, como se estivesse com sono.
 Oh... escute  ele murmurou.  Acabei me esquecendo de esclarecer alguns detalhes sobre minha empregada, mas acho que provavelmente  melhor fazer isso agora.
Virando a cabea, Michelle encarou-o com curiosidade.
 Sou toda ouvidos.
 Bem...  Gabriel comeou devagar, como se escolhesse cuidadosamente as palavras, o que a deixou alarmada.  O nome dela  Sadie. Algumas pessoas a chamam de
Big Sadie. De qualquer forma, est na famlia h muito tempo... Eu nem havia nascido quando chegou e... bem, s vezes ela se comporta como a verdadeira dona da casa.
E acho que nunca me importei muito com isso.
Michelle encolheu os ombros.
 Por que me diz isso?
  que s vezes pode ser difcil conviver com ela. Sadie  meio autoritria, mandona. Mas garanto que tem um corao de ouro.
 Ainda bem  Michelle replicou secamente.  Se a mulher no tivesse nenhum defeito, eu ia acabar pensando que era perfeita.
Gabriel sorriu ao ouvir o comentrio. Voltando a olhar pela janela, Michelle arqueou as sobrancelhas.
 S espero que ela no queira que eu aja como uma dona de casa modelo...
 Para ser franco, Sadie nem mesmo espera por voc. Ela voltou a encar-lo, agora com descrena.
 Quer dizer que no a avisou sobre mim?
 No.
 E essa mulher nem mesmo sabe quem sou? Ele encolheu os ombros.
 S sabe que voc  a mulher que ligou um ms atrs.
 Grande! Aposto que vai ficar muito feliz com a surpresa...  Subitamente, outro pensamento veio  sua mente.  E ela tambm no sabe nada a respeito da criana,
no  mesmo?
 No, ainda no  Gabriel murmurou, evitando encar-la.
 No posso acreditar nisso! Voc simplesmente, pretende chegar em sua casa e me apresentar para Sadie como sua esposa, dizendo em seguida que estou esperando um
filho?
Por um instante ele hesitou, mas finalmente falou:
 Sim.  o que pretendo fazer.  Esperou alguns segundos at que Michelle assimilasse a informao, e depois emendou:  E, s para que voc fique preparada... pretendo
me casar em poucos dias. No quero ter nenhum problema para registrar a criana, quando nascer.
 Claro que sim  Michelle murmurou.  Quer dizer, no era isso mesmo que tnhamos combinado ontem?
 Exato  Gabriel confirmou.  Fico feliz por ver que est comeando a pensar como eu.
 Francamente  ela retrucou quando o avio tocava no solo  acho que no tenho muitas opes.
Gabriel aproximou-se e sussurrou em seu ouvido:
 Voc parece ter esquecido que ns dois fizemos nossa escolha naquela noite, em Acapulco...
Ela corou violentamente.
 Oh... certo... como eu poderia esquecer?
"Se conseguir sobreviver aos prximos anos, nunca mais quero ouvir falar em Acapulco!", ela pensou. "Porque a simples meno daquele lugar traria lembranas que
quero esquecer."
E ento, meio sem graa, os dois permaneceram em silncio at que a aterrissagem fosse concluda.

CAPTULO VI
Michelle sentiu-se completamente fora de seu elemento quando olhou, pela janela da picape vermelha de Gabriel, o cenrio campestre. A noite caa naquele momento,
tingindo o horizonte e a vegetao  beira da estrada em vrios matizes de vermelho. Estava acostumada  vida em uma cidade costeira, com praias lotadas e gente
bronzeada, e no aos campos e s plantaes. Na verdade, se tivesse uma chance, sem dvida faria meia-volta e retornaria para casa.
Finalmente Gabriel saiu da estrada principal e tomou uma trilha estreita e longa, com carvalhos em ambos os lados. A fila de rvores frondosas mais parecia uma
parede, que impedia totalmente a viso dos campos por detrs. A beleza ancestral do lugar fez com que surgisse em Michelle um sentimento crescente de admirao pela
casa de Gabriel.
Olhando para frente, finalmente viu a velha construo, que sabia ter sido feita pelo bisav dele. Era imensa, toda em estilo francs clssico. Do lado de fora
havia uma escada que levava aos aposentos dos rapazes que, como Gabriel explicou, no antigo dialeto cajun dos imigrantes franceses eram chamados de quartos des garons.
Mas as garotas das famlias cajun ancestrais, ele comentou, sempre dormiam em aposentos prximos aos dos pais, para que sua virtude pudesse ser preservada. Os filhos,
obviamente, dispunham de muito mais liberdade de movimento naqueles tempos...
De certa forma, Michelle pensou, aquele padro continuava a vigorar nos dias atuais. Os meninos sempre levavam vantagem. E, se algum questionasse isso, bastava
perguntar a um pai quanto ele ficava preocupado por ter uma filha...
Gabriel chegou ao fim da trilha de seixos e estacionou na imensa garagem ao lado da casa. Michelle notou que aquela parte fora construda depois, pois os materiais
sem dvida eram mais modernos.
 Bem, chegamos  ele anunciou, olhando para a manso como se a visse pela primeira vez em muito tempo. Finalmente abriu a porta da picape e saltou, respirando profundamente.
Michelle fez o mesmo. Suas pernas, entretanto, estavam muito trmulas.  Vou levar a bagagem. Est ficando frio aqui fora. Acho melhor voc entrar. Sigo-a daqui
a pouco.
A observao era correta, pois Michelle j sentia a pele crispar-se sob a fina malha que usava. Naquele momento surgiu um vulto na janela da varanda, vindo do interior
da casa. Sem dvida aquela pessoa era ningum menos do que a famosa empregada, Sadie.
A constatao, somada ao vento frio do fim de tarde, fez um arrepio percorrer a espinha de Michelle. Abraando o prprio corpo para se proteger, ela decidiu:
 Acho que vou esperar voc.
Gabriel retirou a bagagem do porta-malas da picape, carregando-a sem dificuldade, e s ento comeou a caminhar para a varanda iluminada.
 Vamos logo, seno voc vai congelar  disse.
 Acho que isso j aconteceu  Michelle respondeu, seguindo-o com passos vacilantes.
 Voc no pode se arriscar a ficar doente agora  ele murmurou, num tom cheio de preocupao.
 Sei disso  ela concordou de forma impessoal.  Por causa do beb.  A segunda frase foi dita como um sussurro.
Gabriel arqueou as sobrancelhas.
 Vamos l... no seja tola.  Caminhou at a porta e empurrou-a com o corpo, abrindo passagem para Michelle.  Pode entrar  convidou com firmeza.
Ela alcanou a sala de estar aquecida muito devagar, experimentando imediatamente um grande alvio. Mal podia sentir os dedos, tamanho era o frio que passara do
lado de fora. Sabia, porm, que o tremor que a acometia no se devia apenas quilo...
 Vou fazer um pouco de chocolate quente  Michelle ouviu Sadie dizer.
Virou-se e finalmente encarou a mulher alta e robusta, com uma expresso severa e cabelos totalmente brancos, que lhe davam uma aparncia ainda mais imponente.
 Ol  Michelle cumprimentou, tremendo por antecipao, mesmo sem saber ao certo por qu. Por algum motivo, queria causar boa impresso. Afinal de contas, a partir
daquele momento iriam viver sob o mesmo teto.
 Voc deve ser Sadie. Eu sou Michelle Ames. Acho que falamos ao telefone algumas semanas atrs.
A matrona examinou-a por um longo momento, durante o qual Michelle sentiu um grande calor no rosto. Olhou para Gabriel como se pedisse ajuda, mas ele no pareceu
entender o apelo. Na verdade, nem estava olhando para a cena, ocupado em colocar a bagagem num canto antes de voltar para apanhar o resto.
Naquele instante a empregada deu um passo adiante.
 Voc  aquela moa da Califrnia, no ?
 Oh... sim, senhora  Michelle murmurou, comportando-se como uma colegial acanhada. Era uma reao espontnea, pois a mulher lembrava a figura autoritria de
seu pai.  Gabriel e eu nos conhecemos em Acapulco, durante as frias.
 Entendo  Sadie respondeu. As feies de seu rosto duro permaneceram inabalveis.
 Michelle e eu nos casamos no Mxico  Gabriel interveio com naturalidade.  Mas, devido a circunstncias que fugiram de nosso controle, teremos que nos casar
novamente aqui nos Estados Unidos.
A empregada franziu as sobrancelhas. Ento seus olhos se estreitaram.
 E isso tudo de uma hora para outra, no  mesmo?
Gabriel encolheu os ombros.
 Sim... Quer dizer, mais ou menos. Mas no podemos agir de outra maneira.
 Hum...  Sadie murmurou, examinando o rosto dele antes de voltar sua ateno para Michelle.  Parece que existe algo nessa histria que eu ainda no estou sabendo.
Primeiro ela liga para c... e agora vocs chegam juntos. Como meu pai me dizia sempre, "nesse mato tem cachorro".
 Bem... sim, tem mesmo  Gabriel confirmou, limpando a garganta.  Mas acho melhor no falar sobre isso agora. Contarei tudo amanh cedo. Por enquanto, s quero
carregar nossa bagagem para cima e tomar um banho quente  murmurou em seguida, saindo pela porta para apanhar o resto das malas na picape.
  melhor voc voltar j, Gabe Lafleur  Sadie ordenou num tom frio como ao.  E pode apostar que vou querer uma boa explicao para tudo isso.
"Droga, Gabriel", Michelle pensou. "Como pde me deixar sozinha com essa mulher?"
Parada ali, bem no meio da sala de estar, ela no desejava outra coisa a no ser desaparecer logo, num passe de mgica.
Depois de olh-la por vrios segundos em silncio, Sadie surpreendeu-a ao indicar uma das confortveis poltronas de couro, dizendo:
 Sente-se, ma cherie. Deve estar cansada depois de uma viagem assim to longa. O chocolate quente estar pronto bem rpido, e vou lhe trazer uma caneca.
Sem fazer perguntas, Michelle agradeceu com um gesto de cabea e sentou-se, obediente. Sem dvida uma bebida quente cairia muito bem, concluiu. Mas talvez fosse
melhor se tomasse uma dose de usque...
No. Estava grvida, lembrou-se de imediato. Naquele momento ingerir lcool estava completamente fora de questo.
Minutos depois, Sadie retornou da cozinha com uma caneca fumegante entre os dedos e ofereceu-a gentilmente. Estendendo as mos com hesitao, Michelle aceitou,
primeiro soprando o lquido e depois sorvendo um gole com cautela.
 Bem, que tal?  a mulher perguntou, ainda parada a seu lado.
 Maravilhoso!  tudo o que eu podia querer nesse instante.
Sorrindo com satisfao, a empregada finalmente decidiu sentar-se, escolhendo uma poltrona bem em frente  de Michelle, e ento encarou-a diretamente.
 Eu gostaria muito de lhe dizer uma coisa de maneira bem clara.
  vontade, por favor  Michelle encorajou-a, colocando a caneca na mesa de mogno ao lado, ao mesmo tempo em que se preparava para o pior.
Queria muito que Gabriel retornasse logo para salv-la daquela situao constrangedora.
 Eu amo Gabe como se fosse meu prprio filho. No quero v-lo ferido outra vez. A ex-mulher quase o matou de desgosto. Foi uma bno quando ela finalmente foi
embora.  Os olhos castanhos de Sadie mantinham-se fixos nos de Michelle.  Mas, vou ser muito direta, no pretendo deixar que algo assim acontea a ele outra vez.
 Posso entender por que se sente assim  Michelle murmurou.  Mas tambm posso assegurar uma coisa: no  possvel que eu venha a ferir Gabriel. De forma alguma.
Sadie encarou-a com curiosidade.
 O que quer dizer?
 Gabriel e eu no decidimos nos casar apenas para ficar juntos. Quer dizer, ns na verdade nem estamos apaixonados...
A empregada franziu as sobrancelhas.
 Mas isso no faz nenhum sentido!
 Acho que ele poder lhe explicar melhor a situao.
 Entendo  Sadie murmurou.  Nesse caso, j que vai viver nesta casa, preciso saber algumas coisas. Voc sabe cozinhar?
Abrindo muito os olhos, surpresa, Michelle encolheu os ombros.
 Muito pouco. Mas sei fazer uma grande salada de atum.
 Salada de atum?  a empregada repetiu, secamente.
Obviamente no era a resposta que esperava ouvir.
 E... est acostumada a limpar sua prpria casa?  Sadie agora olhava diretamente para as unhas polidas e manicuradas de Michelle.
 Ahn... Eu tinha uma arrumadeira, que limpava minha casa em San Diego uma vez por semana. Mas no resto do tempo eu mesma mantinha as coisas em ordem.
 Aposto como nunca viu uma boucherie, e muito menos ajudou numa  Sadie continuou.
Michelle inclinou-se para frente.
 Como  que ?
 Um abate  a empregada explicou, olhando-a com desdm.  Voc sabe, quando se mata um boi para retirar a carne.
O estmago de Michelle revirou. Subitamente, sentiu uma onda de nusea.
 Cus, claro que no! Eu nunca suportaria ver uma coisa dessas. Mas por que mencionou isso?
Sadie meneou a cabea.
 Minha querida, vejo que voc precisa aprender muita coisa sobre a maneira de viver nessa parte do pas.
"Grande concluso!", Michelle pensou com ansiedade.
Era bvio que a empregada de Gabriel pretendia intimid-la... e, sem dvida alguma, estava fazendo um bom trabalho.
 Escute  ela murmurou, sentindo os lbios muito ressecados  acho que no h nenhum sentido em continuar mantendo segredo. Voc precisa saber logo de uma coisa.
 O qu?  Sadie perguntou.
 Bem...  que na verdade... Gabriel e eu decidimos nos casar por que... bem, porque vou ter um beb.
"Pronto", disse a si mesma. Finalmente conseguira reunir coragem o bastante para dizer tudo.
 Um beb!  a matrona repetiu, incrdula.  Bem, eu nunca imaginaria...  a voz dela morreu, e por isso foi necessrio que respirasse profundamente para continuar.
Dessa vez, porm, seus olhos brilhavam de excitao:  O filho de Gabe?  indagou num fio de voz.
Incapaz de falar naquele momento, Michelle limitou-se a assentir, meneando a cabea.
 Nossa, isso  o que chamo de surpresa!  a velha empregada replicou.  Finalmente Gabe vai ter um herdeiro, ento!
 Ele disse que voc ficaria muito feliz com isso  Michelle murmurou com hesitao.
 Claro que sim!  Sadie confirmou, arqueando as sobrancelhas.  Esse beb, afinal de contas, ser praticamente meu neto!
Michelle sorriu, encabulada.
 Fico contente por sua felicidade, mas preciso ser honesta. Minha gravidez no foi planejada. Na verdade, nenhum de ns esperava por isso... preferamos levar nossas
vidas separados.
  verdade?  Sadie perguntou, sem parecer surpresa com a notcia.  Bem, ento s posso concluir que o destino tinha outros planos para vocs dois.
No havia como responder quela afirmao. Mas Michelle desconfiava que o destino no cometeria um engano to grande. Acreditava, isso sim, que seu erro e o de
Gabriel haviam causado tudo. Mesmo assim, no fazia nenhum sentido discutir o assunto com a empregada.
 De qualquer forma  finalmente continuou  Gabriel e eu fizemos um acordo. Ns nos casaremos para o bem da criana, mas planejamos continuar levando nossas vidas
como se nada tivesse acontecido.
A anci franziu o sobrecenho.
  mesmo? Bem, deixe-me ento dizer uma coisa que s a experincia pode ensinar a algum, e garanto que vou ser muito sincera. Um casamento assim nunca
funcionaria.
Sabendo que Sadie estava certa, Michelle desviou o olhar intencionalmente. No queria que a mulher pudesse ler isso em seus olhos.
 Ento  a empregada continuou, imperturbvel  acho que nem preciso perguntar se voc o ama, no ?
Michelle meneou a cabea.
 Amor no tem nada a ver com isso. Mas ns dois nos sentimos responsveis por essa criana.
Sadie sorriu com afetao.
 Isso  verdade?
   Michelle respondeu simplesmente, erguendo-se em seguida para ficar bem ereta na poltrona.
Era muito importante demonstrar, para Sadie e para todas as pessoas, que no aceitara aquele casamento como uma tbua de salvao, mas apenas como um sacrifcio
que fazia conscientemente em prol do prprio filho. E tambm no adiantava nem mesmo cogitar um romance com Gabriel Lafleur, pois com certeza ele no retribuiria
jamais a seus sentimentos.
Subitamente, Sadie inclinou-se para frente, aproximando-se mais.
 Escute, ma cherie, acho que vou gostar de voc... e acredito at mesmo que somos parecidas. Assim sendo, vou fazer tudo o que puder para facilitar-lhe as coisas.
 Voc? Gostar de mim?  Michelle perguntou confusa.
 Sim, isso mesmo  a empregada respondeu. Seus lbios lentamente curvaram-se num sorriso.  Mas no quero que diga isso a ningum, certo? As pessoas por aqui costumam
pensar que sou... bem, que sou fria e durona. Sinceramente, acho melhor que continuem pensando assim.
 Mas na verdade voc no  desse modo, certo?  Michelle indagou com seriedade, sentindo-se, porm, aliviada pelas palavras que acabara de ouvir.
A terrvel empregada de Gabriel, afinal de contas, acabara de dizer que gostava dela! Sorveu silenciosamente outro gole do chocolate quente. As coisas estavam
indo melhor do que planejara.
 Onde foi que Gabe se meteu?  Sadie murmurou, mudando rapidamente de assunto.  No adianta aquele rapaz se esconder. Ele ainda vai ter que me dar algumas explicaes.
 Estou aqui  Gabriel respondeu, entrando justamente naquele instante.  Desculpem-me se demorei muito l fora, mas pensei ter visto um novilho solto e por isso
fui at o curral, verificar se estava trancado.
Esfregou as mos vigorosamente, para aquec-las.
 Vou ter que ligar a Blaine  disse em seguida, dirigindo-se  empregada  para me certificar de que tudo estar pronto para o plantio amanh pela manh.
 Ele j cuidou disso  Sadie anunciou.
Michelle assistia  cena como se no fizesse parte dela. No fundo, perguntava-se como sua vida podia ter mudado tanto s por causa de uma noite de amor em Acapulco.
Gabriel foi at a cozinha e voltou logo depois, com uma caneca de chocolate quente entre os dedos.
 Est fazendo um frio danado l fora.
 Est mesmo  a anci concordou, olhando-o de relance com desdm.  Mas parece que voc tem andado muito "quente" nos ltimos tempos, no , meu filho?
Ele franziu as sobrancelhas.
 Ora... sobre o que est falando?
 Como se voc no soubesse!  Sadie replicou secamente.
 Bem, eu no sei  ele murmurou, encolhendo os ombros e rindo. A mulher, porm, continuou a encar-lo com uma expresso implacvel.  Tudo bem  Gabriel rendeu-se
por fim.  Em que est pensando agora?
Michelle respirou fundo, tomando coragem para falar.
 Ela j sabe sobre o beb. Eu contei.
 Oh...  ele murmurou, estreitando os olhos numa reao surpresa. No falou mais nenhuma palavra.
Sadie levantou-se e encarou-o diretamente, colocando as mos na cintura.
 Bem, voc no tem nada a dizer sobre isso?  perguntou.
 Hoje no  ele replicou, contrariado.  Estou cansado, e sei que Michelle tambm est. Acho que agora no  um bom momento para discutir esse assunto.
A anci sorriu com desdm.
 Provavelmente voc est certo. Mas espero que esse assunto seja retomado amanh cedo, Gabe Lafleur  emendou, comeando a caminhar na direo do corredor.  J
passou da minha hora de ir dormir. Vejo vocs pela manh.  Depois de dizer isso, saiu, deixando-os a ss.
 Bem...  Gabriel murmurou, suspirando.  Devo dizer que Sadie recebeu as notcias melhor do que eu esperava.
 Ainda bem.
Ele sentou-se na mesma poltrona antes ocupada pela empregada e terminou de tomar o chocolate quente. Logo depois colocou a caneca na mesa de centro e virou-se para
encar-la.
 Quer que eu lhe mostre seu quarto agora?  perguntou.
 Sim  ela balbuciou.
No fazia a mnima idia do que podia estar causando aquela sensao de medo por dormir naquela casa.
 A escada fica por aqui. Siga-me.
Pararam por um instante, para que Gabriel pudesse apanhar as malas, subindo em seguida a grande escada em caracol. Depois de percorrerem um longo corredor, finalmente
pararam diante de uma porta.
 Esse vai ser seu quarto de agora em diante  ele informou.  O meu fica duas portas adiante  emendou, apontando para os prprios aposentos.  Se precisar de alguma
coisa, basta bater.
Posso precisar de voc... Ridculo, Michelle disse a si mesma, tentando negar o pensamento fugidio que lhe ocorrera.
Devia ser apenas uma pequena crise hormonal, concluiu. Era uma mulher adulta, independente e emancipada. No precisaria dele para nada. Nem de Gabriel nem de ningum.
Finalmente entrou no quarto, e ento se virou para encar-lo.
 Acho que vou tomar um banho. Amanh vou me sentir bem melhor.
 Certo  ele murmurou, num tom de voz que se tornara subitamente rouco e suave.  E, como eu j disse, me chame se precisar de alguma coisa.
 Obrigada  ela disse, ansiosa para fechar logo a porta. Sentia um estranho tremor por todo o corpo... exatamente como naquela noite em Acapulco, e no conseguia
entender por qu.  Boa noite  falou finalmente, prendendo a respirao. Gabriel assentiu, meneando a cabea.
 Boa noite.
Ela fechou a porta imediatamente, encostando-se na parede com um suspiro de alvio.
Instantes depois foi at a cama, abrindo uma das malas e retirando de l somente o que precisava: uma camisola, toalhas, seu robe e sais de banho. Arrumaria tudo
no dia seguinte, quando se sentisse mais descansada.
Estava prestes a ir para o banheiro quando ouviu uma batida na porta. Caminhou at l apressada, sabendo exatamente de quem se tratava. Mais uma vez seu corao
acelerara-se sem motivo.
 Oi  Gabriel murmurou com um sorriso desajeitado, ao v-la.   que... bem, quando cheguei no meu quarto imaginei que voc poderia precisar de mais cobertores.
Est fazendo muito frio, e no quero que fique congelada de madrugada.  Michelle encarou-o por um instante, sem saber o que dizer. Mas nem foi necessrio falar
nada, pois ele continuou, logo em seguida:  Posso checar sua cama?
 Claro  ela balbuciou, confusa, observando-o entrar no quarto sem nenhuma cerimnia.
 Como eu pensava  Gabriel anunciou instantes depois.  S h um cobertor aqui. Tudo bem, vou providenciar mais dois. Pode ficar tranqila e tomar seu banho. Eu
arrumo sua cama enquanto voc estiver no banheiro.
Ela o observara o tempo todo sem dizer uma palavra sequer.
 Oh... obrigada. Voc est sendo muito gentil  murmurou afinal.
Gabriel fez um gesto amplo com as mos e encolheu os ombros. Logo depois saiu do quarto, lanando antes um sorriso para Michelle.
Ela foi direto para o banheiro e fechou a porta. Tentou trancar a fechadura, mas notou que estava quebrada. Falta de privacidade, pensou, desanimada.
Mas, claro, no precisava se preocupar muito com aquilo. Apenas ela e Gabriel usavam os aposentos daquele andar, e sem dvida ele no ousaria entrar l. No dia
seguinte pediria a algum para trocar a tranca...
Durante o banho, conseguiu relaxar bastante os msculos. Sem dvida aquele dia representava uma grande virada em sua vida. Por isso, ficara tensa a maior parte do
tempo. O encontro com Sadie tambm no fora nada fcil, no comeo. Felizmente, a velha empregada revelara-se muito mais compreensiva do que imaginara.
Mas agora era hora de enfrentar novos desafios, concluiu. No dia seguinte esperava se informar sobre as possibilidades de trabalho nas cidades a que Gabriel se
referira, e talvez at mesmo enviar alguns currculos. Quanto antes comeasse a procurar um emprego, tanto melhor.
Estava mais tranqila quando finalmente acabou, mas bastou voltar ao quarto para sentir a tenso crescer outra vez. Gabriel a esperava l, sentado na poltrona ao
lado da ampla janela. Ao v-la, sorriu de imediato.
 J arrumei a cama  anunciou.  Espero que voc fique  vontade.
 Arrume a tranca do banheiro  ela pediu, ignorando-lhe as palavras.  Algumas vezes os hspedes gostam de ter um pouco de privacidade...
 Michelle?
Ela encarou-o fixamente.
 O que foi?
 Voc no  uma hspede.  uma moradora permanente, lembra-se?
O queixo dela ergueu-se, em desafio.
 Um motivo ainda melhor para que voc faa o conserto.
Gabriel no se incomodou em responder. Por isso, Michelle caminhou at a porta do quarto com passos decididos, indicando que pretendia ficar sozinha.
Ele saiu lentamente, girando sobre os calcanhares para encar-la ao cruzar o batente.
 O que foi?  ela perguntou, impaciente.
Os olhos masculinos examinaram o rosto de finos traos por um instante, depois baixaram audaciosamente at o decote do robe, que deixava entrever as formas generosas
dos seios fartos. Gabriel parecia disposto a dizer algo, mas de repente, como se mudasse de idia, se afastou a passos largos na direo do prprio quarto.
Poucos minutos depois, Michelle estava deitada e aquecida, sob os cobertores. Adormeceu quase instantaneamente, e teve um sonho muito ntido, recheado de recordaes
da noite em que os dois tinham feito amor naquele quarto de hotel no Mxico...
Quando acordou, na manh seguinte, concluiu, sem sombra de dvida, que o tempo da paixo era apenas coisa do passado. E era assim mesmo que desejava que as coisas
continuassem.

CAPTULO VII
Depois de passar pela crise de enjo matinal, Michelle vestiu um suter branco de l, cala jeans e desceu a escada. Como imaginara, encontrou Sadie ocupada na
pia da cozinha.
 Bom dia  cumprimentou. A mulher virou-se e sorriu.
 Ora,  bom v-la acordada e pronta para sua primeira lio!
Franzindo as sobrancelhas, Michelle enfiou as mos nos bolsos traseiros da cala.
 Minha primeira lio?
 Certo  Sadie confirmou, assentindo com um gesto de cabea.  Aula de culinria.  A expresso da empregada ficou sria.  No costumamos comer muita salada de
atum por aqui...
 Oh!  Michelle balbuciou, lembrando-se da conversa da noite anterior.  Mas eu pensei... Quero dizer, pelo que Gabriel me disse...
 Achou que eu cozinhasse sozinha, certo? E verdade. Mas voc precisa aprender.  melhor prevenir. Nunca se sabe quando o bom Deus vai chamar Big Sadie para conhec-lo.
Alm disso, quanto mais aprender sobre o funcionamento dessa casa, mais fcil ser compreender por que Gabe e eu amamos tanto esse lugar. Garanto que, quando isso
acontecer, vai parar de pensar em voltar para a Califrnia...
 Ah!  Michelle murmurou.  Agora estou entendendo. Mas isso no vai mudar meus sentimentos.
Ignorando o comentrio, a empregada se aproximou, tomando-a pelo brao e conduzindo-a at a mesa da cozinha.
 No seja teimosa. Big Sadie sabe muito bem o que est fazendo.
Gabriel estava certo no que dissera sobre a empregada. A mulher nunca parava de dar ordens. Mas era preciso admitir que sabia agir assim. Conseguia fazer com que
as pessoas aceitassem suas maneiras autoritrias sempre que abria um daqueles sorrisos luminosos.
 Onde est Gabriel?
 Trabalhando nos campos. Acordou antes do amanhecer. Isso  muito comum por aqui.
Michelle sorriu.
 Vou tentar me acostumar.
Foi ento que se lembrou vagamente de ter tido a impresso de que algum entrara em seu quarto enquanto tudo ainda estava muito escuro... Na hora, pensara que apenas
sonhara aquilo. Poderia ter sido Gabriel?
Se fosse verdade, ele teria passado pelo quarto para se certificar de que o beb estava bem. No que Michelle no estivesse preocupada com a criana. Estava. Mas
s vezes, apenas de vez em quando, gostaria de saber que Gabriel se importava igualmente com ela. Era infantil e egosta sentir-se daquele jeito, mas no podia evitar.
Parecia que, por mais que se esforasse para se convencer do contrrio, cada vez mais desejava ser amada por aquele homem.
"Esquea isso", uma voz interior advertiu.
Aquela necessidade de ser amada sem dvida fora causada pela maneira dura como fora criada pelo pai. Mas agora era adulta. No precisava do pai, de Gabriel... nem
de homem algum. Era uma pessoa auto-suficiente, e no devia se esquecer daquilo um minuto sequer.
Sem se incomodar em perguntar-lhe se sentia fome, Sadie serviu-lhe um prato de cereais com leite e frutas. Ao lado colocou tambm algumas panquecas e gelia.
 Coma  ordenou.  Voc est muito magrinha.
Michelle sorriu. Estava realmente faminta. Ento provou um pouco de cada prato e suspirou, satisfeita. Aquele era o melhor caf da manh que tivera em muito tempo.
Sadie tambm sorriu.
 Boa menina  aprovou, virando-se em seguida para a pia.  Gabe vai voltar perto do meio-dia. Disse algo sobre ir at a cidade para providenciar a licena
de casamento. Por isso acredito que vai querer que voc v tambm.  Ao dizer isso, a empregada virou-se, encarando Michelle novamente.  Os homens so assim, sabe?
Mulheres esperam bebs. E eles esperam que as mulheres adivinhem o que esto pensando. Nunca dizem o que lhes passa pela mente. E Gabe... Santo Deus! Acho que 
um dos piores. Deve achar que as mulheres podem ler sua mente!
Michelle tomou um gole do suco de laranja e sorriu. Depois de limpar a boca, dirigiu-se  empregada:
 Para ser honesta, imaginei que voc me faria um monte de perguntas sobre... mim e... Gabriel.
 Nada disso  a empregada murmurou.  Fiz todas as perguntas possveis para Gabe.
 Entendo  Michelle respondeu, recolocando o copo de suco na mesa. Ento cruzou as mos sobre o colo.  Suponho que agora entenda por que nosso casamento no pode
ser considerado uma unio convencional.
 J que me perguntou... No sei se posso dizer outra coisa seno tentar abrir os olhos de vocs dois para o que os aguarda num futuro muito prximo.
 Sei que no concorda com nossa deciso mas...
 Certamente no concordo. Mas tambm no posso dizer nada contra. Sou apenas a empregada, lembra-se? Alm disso, Gabe deixou bem claro que devo me ocupar apenas
de minha prpria vida. E  o que pretendo fazer. Minhas tarefas por aqui so cozinhar, limpar e, quando chegar a hora, ajud-los com a criana que est para chegar.
Mas, nesse meio tempo, sinto-me na obrigao de ensinar a voc tudo o que sei sobre cuidar de uma casa. Um dia ainda vai me agradecer por isso.
Arqueando as sobrancelhas, Michelle recostou-se no espaldar da cadeira. Se Gabriel achava que podia maltratar aquela mulher, mandando-a cuidar apenas da prpria
vida, ento ia ter uma surpresa. No achava justo que a velha senhora se sentisse desprezada.
De qualquer forma, por volta das dez e meia daquela manh, Michelle teve sua lio nmero um, aprendendo como fazer uma torta de frango. Infelizmente, logo percebeu
que no era to fcil cozinhar. Ao colocar as tortas no forno, teve certeza de que sua criao no chegaria aos ps da de Sadie.
Ficou com as roupas e o rosto cheios de farinha. A massa grudou em suas unhas. Toda aquela confuso teria sido recompensada se, pelo menos, o trabalho ficasse perfeito.
Michelle se consolava com a idia de que no teria que comer nenhum bocado da prpria obra, o que, sem dvida alguma, lhe causaria uma indigesto. A torta de Sadie,
pelo contrrio, exalava um aroma maravilhoso enquanto assava no forno!
A empregada pediu-lhe para lavar a loua, enquanto terminava os preparativos para o almoo. E naquele momento Michelle lembrou-se da fechadura quebrada do banheiro.
Aparentemente, a anci j estava informada sobre o assunto.
 Ah, Gabe me disse que consertou a fechadura hoje, antes de sair. Ele tentou ser silencioso, tomando cuidado para no acord-la, e parece que conseguiu.
Michelle assentiu, meneando a cabea, e voltou a concentrar-se na tarefa de limpar pratos e panelas. Logo depois, Sadie saiu da cozinha, dizendo que precisava cuidar
de algo nos fundos da casa.
Subitamente, a porta abriu-se com um estrondo e Gabriel entrou, vestindo uma pesada capa impermevel e um par de luvas de trabalho. A primeira coisa que fez foi
remover as luvas. Depois retirou a capa, pendurando-a em um gancho preso  parede, e passou os dedos entre os cabelos.
 Oi  Michelle cumprimentou, sorrindo em sua direo.
Um sorriso divertido curvou os lbios de Gabriel. Ao virar-se para encar-la, pareceu estar vendo a cena mais engraada dos ltimos tempos.
 Do que est rindo?  ela perguntou, indignada.
 Venha c  ele pediu, segurando-a pelos ombros e conduzindo-a at a copa, onde havia um espelho pendurado na parede.  Agora, d uma olhadela.
Bastou um olhar de relance para que Michelle descobrisse do que Gabriel rira. Estava toda suja de farinha.
 Oh, meu Deus!  gemeu, passando as mos nervosamente pela testa e pelo nariz.  Estou parecendo uma palhaa!
 Foi exatamente o que pensei  Gabriel confessou, ainda sorrindo.
Examinando suas costas, comeou a limp-la ali, descendo at os quadris. Como se ela precisasse de ajuda para aquilo! De qualquer maneira, Michelle no se moveu.
 Pronto  ele disse depois de um momento.  Pelo menos est mais limpa agora.
 Obrigada.
Se ele pelo menos soubesse que Michelle ficara naquele estado miservel por ter tentado fazer uma ridcula torta para o almoo...
 O que esteve fazendo?
 Brincando com farinha, o que mais?  ela replicou com cinismo, voltando para a pia da cozinha.  No  isso que as jovens esposas costumam fazer por aqui?
Gabriel sorriu e ento olhou para a lata, que ainda no havia sido guardada. Apanhando um pouco com a mo, perguntou:
 Est querendo dizer... assim?  E, subitamente, atirou-lhe a farinha. O arremesso atingiu-a bem no meio do peito, espalhando-se por toda a roupa.
Abaixando os olhos, Michelle examinou com descrena o que ele acabara de fazer. Depois, enfiando a mo dentro da lata, respirou profundamente.
 No  disse.  Foi assim!
Foi a vez de as roupas masculinas ficarem totalmente esbranquiadas pelo p. Os olhos castanhos de Gabriel brilhavam muito, e ele parecia se divertir com a situao.
 No vou deix-la escapar to fcil assim  ele murmurou com seu forte sotaque cajun. E logo em seguida arremessou mais farinha na direo de Michelle.
 Foi voc quem pediu isso  ela gritou ao ser atingida pelo segundo arremesso, que dessa vez encheu de p branco seu rosto e seus cabelos.
Em seguida piscou e olhou ao redor com desgosto, observando a baguna que ele tinha feito na cozinha que limpara com tanto esforo. Com um gesto amplo, reprovou
Gabriel. Mas um segundo depois, aproveitando a distrao dele, apanhou mais um pouco de farinha e atingiu-o no rosto,  queima-roupa.
Sem mover um msculo, ele piscou vrias vezes. E ento, subitamente, estendeu os braos e enlaou-a, puxando-a para junto de si. Seus lbios curvaram-se num sorriso.
Michelle a princpio no soube o que ia acontecer, mas logo seu corpo pde sentir o calor que emanava dele. O que, alis, provocou-lhe uma inesperada onda de prazer.
 O que pensa que est fazendo?
O sorriso de Gabriel ia de orelha a orelha.
 O que eu devia ter feito desde o momento em que entrei aqui.
Ento, beijou-a. E foi muito bom...
Finalmente a soltou. Depois de recuperar o flego, ela virou-se, notando que Sadie assistira  cena e estava parada na porta, sorrindo.
 Oh...  Michelle balbuciou, afastando Gabriel com um movimento brusco. Colocou as mos na cintura num gesto de desnimo. Ainda podia sentir o gosto do
beijo na boca, e seus lbios tremiam.  Sinto muito por essa baguna toda em sua cozinha.
Sadie encolheu os ombros e comeou a menear a cabea com desaprovao.
 No me incomodo se vocs dois decidiram agir como crianas. Mas, como fizeram a baguna, acho que agora vo ter que limp-la.
 Oh, vamos sim  ela concordou enfaticamente.  Agora mesmo.
A empregada sorriu por causa da expresso de menina levada de Michelle.
 timo. Mas obrigue esse malandro do Gabe a ajud-la.
Gabriel limpou a garganta.
 Ns estvamos apenas fazendo uma pequena guerra de farinha  explicou.
 Percebi  Sadie murmurou ceticamente.  Mas aposto que sei muito bem quem comeou tudo...  Ento se virou, entrando na casa e deixando-os a ss outra vez.
Olhando para Michelle, Gabriel acentuou o sorriso.
 Voc est ridcula. Ela retribuiu o sorriso.
 Olhe quem fala!
Um momento depois, os dois riam como crianas. Mas subitamente, e ao mesmo tempo, ficaram srios. A tenso que parecia dominar aquele relacionamento retornou.
 Voc no devia ter me beijado daquele jeito  ela recriminou.
 E voc no devia ter deixado.
Michelle encarou-o com uma expresso indignada.
 Fala como se tivesse me dado chance para escolher...
 Bem, posso garantir que no a forcei a nada.
 No, no forou  ela murmurou.  Mas... bem, apenas no faa isso de novo, certo?
Gabriel aproximou-se um pouco, dando um passo para frente. Os rostos dos dois ficaram a apenas alguns centmetros de distncia.
 Certo, no farei.  S depois de dizer isso voltou a afastar-se.  Agora, vamos cuidar logo dessa confuso.  quase hora do almoo, e estou faminto.
Naquele momento ela notou que esquecera de checar as tortas no forno, e quase entrou em pnico. Cruzou a cozinha como um raio, mas felizmente nada havia queimado
ainda. Retirou cuidadosamente a torta de Sadie, deixando a que fizera por ltimo.
Gabriel voltou a se aproximar.
 Quem fez essa torta?  perguntou, fingindo seriedade.
 Eu.
 Oh!
Ela virou-se para encar-lo, com um sorriso brilhante no rosto.
 Quer um pedao?
 Ahn...
Michelle sabia que o acuara, e estava adorando a situao.
 No vai nem mesmo provar a torta que fiz com tanto carinho?  insistiu, com a expresso mais cndida desse mundo.
Ele olhou lentamente para os dois lados, como se quisesse ganhar tempo e encontrar uma desculpa qualquer para recusar. Mas Michelle no estava nem um pouco disposta
a ouvir um "no" como resposta.
 Sente-se aqui  ela disse.  Vou lhe oferecer um pedao.
Ao dizer isso, cortou uma fatia da torta que fizera, para servi-lo. Entretanto, planejava experimentar a de Sadie.
 Voc no vai comer?  ele perguntou quando Michelle lhe estendeu o prato.
Ela teve que se conter para no rir da expresso hesitante.
 No. Antes vou terminar a limpeza da cozinha.
 Eu posso ajudar  Gabriel se ofereceu, fazendo meno de se levantar.
 Oh, no! Est tudo bem  ela murmurou, empurrando-o delicadamente para baixo.  No quero que sua torta fique fria. Vou limpar tudo sozinha. Fique sentado e tenha
um bom apetite.
 Voc  to gentil...  Gabriel comentou devagar, olhando desanimado para o prato.
Michelle ignorou-o e comeou a limpar o balco lentamente. Com o canto do olho, observou-o engolir o primeiro pedao. O rosto viril ficou contrado, demonstrando
que era necessrio um grande esforo para engolir a torta. Aproximando-se outra vez, ela sorriu ternamente.
 O que achou?  perguntou, mal conseguindo conter o riso.
Ele continuou a mastigar, mantendo uma expresso impassvel.
 tima  finalmente respondeu.
 Sadie me disse para colocar um pouco mais de sal, mas acho que exagerei um pouco. O que acha? Est muito salgada?
Gabriel engoliu em seco.
 S um pouquinho  murmurou, mantendo um sorriso desajeitado nos lbios.  Por falar nisso, voc podia me dar um pouco d'gua?
 Claro  Michelle replicou, cordial, indo at o filtro que ficava na pia e voltando com um copo cheio de gua.  Quer gelo?  perguntou.
 Apenas gua  ele respondeu, meneando a cabea.
Ao v-lo terminar o copo de um gole, Michelle adiantou-se:
 Quer mais?
 No, aquela fatia j me deixou satisfeito. Muito obrigado mesmo assim.
 Eu estava falando sobre a gua  Michelle disse, fingindo indignao.
Para ser honesta, de certa forma seu orgulho estava mesmo ferido. O que ele podia esperar de uma primeira lio? Um prato digno de um chef francs? Ora, nunca fora
treinada para ser uma dona de casa. Mas era muito boa em outros assuntos. Por exemplo, era realmente talentosa como publicitria.
Gabriel limpou os lbios com o guardanapo e recostou-se no espaldar da cadeira, determinado a mudar de assunto.
 Voc no ganhou nenhum peso... quero dizer, por causa da gravidez. Parece estar exatamente como a conheci, em Acapulco.
O fato de ter sido observada com tanta ateno deixou-a lisonjeada. Levou uma das mos ao ventre.
 Talvez um quilo, ou um pouco mais.
 No deve se descuidar. Ganhar muito peso no  bom.
 Sei disso  ela murmurou, suspirando profundamente.  No  bom para o beb, no  mesmo?
 Nem para voc, pelo que sei.
 Por acaso est se importando em como isso me afeta?  Michelle perguntou com escrnio.
 Hei, esse  seu corpo, lembra? E eu estava apenas dando um conselho...
 No precisa se preocupar com meu corpo. Posso me cuidar muito bem sozinha.
Gabriel levantou-se, contrariado.
 Como quiser, ento.  Caminhando at a porta do corredor, murmurou por sobre o ombro:  Vou subir para tomar um banho. Depois vamos para a cidade.
Michelle voltou a olhar para a roupa, suja de farinha.
 Acho que vou assim mesmo  disse em tom de desafio.
Sabia que isso provocaria uma reao nele. Alis, era exatamente o que queria.
 Est bem. O pessoal do cartrio provavelmente vai pensar que estou me casando com uma doida, mas quem se importa?  ele emendou, desaparecendo logo
em seguida.
Aquela indiferena, porm, acabou por deix-la furiosa. Alcanou-o na escada.
 Devo mesmo estar ficando doida, principalmente por ter concordado em vir para c!  gritou a plenos pulmes.
Gabriel parou no final do primeiro lance e virou-se.
 Agora  tarde demais para mudar de idia.
 De maneira nenhuma! Posso ir embora na hora que quiser.  "O nico problema  que no quero fazer isso", pensou.
A exploso provocou uma reao clara em Gabriel, que colocou as mos na cintura e encarou-a fixamente.
 Se voc no fosse ter um filho meu, talvez pudesse mesmo sair quando bem entendesse. Mas j discutimos esse assunto. A verdade  que nosso destino foi selado quando
nos encontramos pela primeira vez naquele hotel mexicano. Apenas no sabamos disso, na ocasio.
Michelle imitou-lhe o gesto, colocando tambm as mos na cintura.
 Voc  realmente incrvel... sabe como fazer uma mulher se sentir desejada!
Os olhos dele estreitaram-se.
 Se est procurando por romance, ento alugue uma fita de vdeo. Ou melhor, compre um livro. Vai ocup-la por mais tempo.
 Sabe, acho que vou fazer exatamente isso  Michelle replicou sarcasticamente.  Pelo menos nos filmes os idiotas s vezes acabam se transformando em caras legais.
Isso  mais do que posso dizer a seu respeito.
 Tudo bem. Apenas esteja pronta em quinze minutos, certo?  ele pediu entre os dentes cerrados.
 J estou pronta agora  ela replicou, curvando os lbios com seu melhor sorriso.
Gabriel simplesmente resmungou uma resposta qualquer e deu-lhe as costas, subindo o resto da escada de dois em dois degraus.
Quando se virou, Michelle encontrou Sadie s suas costas mais uma vez. Meneando a cabea, a empregada encarou-a com um sorriso franco.
 Parece mesmo que vocs dois esto ficando apaixonados...
Michelle franziu as sobrancelhas.
 Isso  ridculo. Que mulher poderia se apaixonar por um tipo arrogante como ele?
Poucos segundos depois, ouviram uma porta batendo no andar superior, o que indicava que Gabriel acabara de entrar no banho. A empregada afastou-se, meneando lentamente
a cabea, com desnimo. Michelle, por sua vez, foi para a cozinha acabar de limpar a baguna.
Minutos mais tarde, correu para o prprio quarto e livrou-se das roupas sujas de farinha. Demorou muito pouco para lavar o rosto e os braos, alm de se pentear.
Esperava chegar antes de Gabriel ao andar inferior, mas ele j estava  sua espera na sala de estar quando finalmente desceu a escada. Sorriu friamente e evitou
encar-la de maneira direta.
 Voc se limpou bem depressa  comentou.
 No estou falando com voc.
 Est muito bom para mim desse jeito  ele replicou, contrafeito.
Quando Gabriel abriu a porta, Michelle passou com indiferena, como se estivesse totalmente controlada. Mas no estava. Na verdade, comeava a notar que, sempre
que se via na presena daquele homem, sua pulsao se acelerava e uma estranha sensao tomava conta de todo o seu corpo...
Caminharam em silncio at a garagem, e pouco tempo depois j estavam na estrada, a caminho do cartrio do condado. Finalmente Gabriel quebrou o silncio:
 Voc se lembrou de trazer algum tipo de identificao... carteira de identidade ou de motorista, por exemplo?
 Tenho tudo o que  necessrio em minha bolsa  ela retrucou num tom spero.
 timo. Acontece que conheo algumas pessoas que trabalham no cartrio e odiaria que elas pensassem que no sei como fazer as coisas direito.
 Bem, pelo menos dessa vez elas no vo ficar decepcionadas.
Providenciar uma licena de casamento era uma tarefa simples. Demorou pouco mais de trinta minutos, do instante em que Gabriel estacionou a picape at voltarem
com o documento pronto nas mos.
Ao entrar no carro, ele tomou uma direo diferente. Michelle ficou curiosa para saber onde estavam indo, mas no quis perguntar. Em vez disso, limitou-se a permanecer
calada no banco do passageiro, como se nada estivesse acontecendo.
Vrios semforos depois, a picape entrou no estacionamento de uma loja cujo luminoso dizia "Casa do Beb". Gabriel ento desligou o motor, abriu a porta e anunciou:
 Vamos descer.
 Certo.
Sem hesitar, Michelle saltou da cabine. Ele, que j dera a volta no carro, ajudou-a.
 Conheo essa loja porque sempre fao compras naquele armazm, do outro lado da rua.
Ela olhou na direo que Gabriel indicara.
 Entendo  murmurou, erguendo a mo  testa para bloquear os raios do sol.  O que estamos fazendo aqui?
Ele ajeitou a aba do bon, para enxerg-la melhor.
 J que estvamos na cidade, achei que poderamos fazer algumas compras para o beb.
 Tudo bem  Michelle concordou, espantada.
Na verdade, fazer compras para a criana era uma coisa que ainda nem lhe passara pela cabea. Mas, aparentemente, Gabriel j pensara em tudo. Alis, o beb parecia
ser mesmo a nica coisa com que ele se preocupava.
 Muito bem  ele disse, tomando-a pelo brao.  Vamos entrar na loja de uma vez.
O interior do amplo salo era dominado por artigos infantis, de roupas e brinquedos at mveis. A vendedora, muito simptica, parecia contente em poder ajud-los
a escolher tudo.
Logo ficou claro, para Michelle e para a prpria vendedora, que Gabriel estava disposto a comprar tudo o que fosse necessrio para um quarto infantil. Os dois escolheram
um lindo bero de madeira, um chiqueirinho, carrinhos, cadeiras e uma mesa para trocar fraldas. Ele tambm apanhou um enorme e macio urso de pelcia marrom, bem
como um carrossel com pequenas lmpadas eltricas.
A vendedora no parava de empilhar cobertores, fraldas, lenis  prova d'gua e muitos outros artigos. Michelle chegou a pensar que o estoque da loja pudesse ficar
seriamente ameaado...
Em certo momento, resolveu passear pelos corredores formados pelas prateleiras, examinando vrios objetos com um olhar perdido. Finalmente parou diante de uma
gndola, encantada com um cobertor branco com as extremidades bordadas.
 Que lindo!  murmurou, tocando delicadamente a pea.
Gabriel apressou-se em juntar-se a ela, e quando o fez havia uma estranha expresso de ternura em seu rosto msculo.
 O que foi?  perguntou num tom de voz profundo e rouco.
 Apenas um cobertor  ela explicou.  Mas achei esse trabalho de bordado maravilhoso. Virou-se para a vendedora.  Quanto custa?
 No tenho certeza. Mas como  feito a mo, com certeza  um pouco mais caro do que os modelos produzidos em srie. Posso verificar em um segundo.
 Tudo bem. Ns vamos levar  Gabriel decidiu, praticamente tirando a embalagem das mos de Michelle.
Surpresa, ela virou-se para encar-lo.
 Talvez devssemos esperar para saber o preo  ponderou.
 Voc gostou, no ?  ele replicou, fitando-a diretamente nos olhos.
Subitamente Michelle notou que estavam muito perto um do outro, o que bastou para que seu corao se acelerasse novamente.
 Sim  confirmou.  Mas...
 Escute,  apenas um cobertor. No pode custar to caro assim.
Gabriel entregou a embalagem para a vendedora, que a colocou junto aos outros artigos selecionados. Depois disso, voltou a olhar para Michelle.
 Oh, por falar nisso, j lhe contei que marquei uma consulta num obstetra?
Ela ficou aturdida.
 Voc realmente pensou em tudo, no  mesmo?
 Esse beb  muito importante para mim.
 Acontece que  importante para mim tambm.
 Sei disso.
Minutos depois, Gabriel pagou pelas compras e carregou-as alegremente para a parte traseira da picape, depois de combinar para o dia seguinte a entrega dos mveis.
Em seguida voltou para casa, indo trabalhar  tarde nos campos. Sadie estava ocupada com inmeros afazeres domsticos, e por isso Michelle decidiu comear sozinha
a limpeza no quarto que seria destinado ao beb.
Quando Gabriel voltou, naquela noite, encontrou-a entretida com aquilo, e parou na porta do aposento por um instante, a caminho do banho, sorrindo-lhe de forma aprovadora.
Sadie serviu a torta de frango no jantar... a dela, claro. Obviamente provara a de Michelle em algum momento durante a tarde e decidira que o melhor destino para
aquele acidente culinrio era mesmo o lixo.
Os trs conversaram muito durante o jantar, e Gabriel disse que, de acordo com o Almanaque do Fazendeiro, aquele seria um dos invernos mais rigorosos dos ltimos
anos. No parecia nada satisfeito com aquilo.
Depois do jantar, trancou-se no escritrio, enquanto as duas mulheres arrumavam a cozinha. A velha empregada no mencionou a falha de Michelle na lio de culinria
uma vez sequer. Depois que os pratos j estavam limpos, limitou-se a dizer boa-noite e foi para seu quarto.
Michelle ento bateu  porta do escritrio.
 Pode entrar  Gabriel convidou.
O ambiente estava quente e confortvel graas s chamas fortes da lareira. Ele, sentado em uma enorme cadeira de balano, lia o jornal.
 Espero no estar incomodando  Michelle disse com cautela.
Gabriel ergueu a cabea, dobrou o jornal e arremessou-o para um lado.
 Tudo bem, no est  tranqilizou-a.  Sente-se, por favor.
Foi o que ela fez.
 Eu... ahn... estava pensando... O que vocs costumam fazer aqui  noite, para se divertir?
Ele arqueou as sobrancelhas.
 Isso depende. O que tem em mente?
Michelle no sabia o que responder. Entretanto, sabia que sua dvida era legtima. Por isso limpou a garganta e continuou:
 Ser que voc nunca vai... ao cinema, por exemplo?
Ele meneou a cabea.
 No com muita freqncia. Principalmente nessa poca do ano. Fico cansado por causa do trabalho no campo, e ento acabo indo para a cama cedo.
 Oh...
Por um longo momento Gabriel examinou a expresso decepcionada de Michelle. Finalmente estendeu a mo e apanhou um controle-remoto sobre a mesinha ao lado da cadeira
de balano e o acionou. Uma televiso de tela grande apareceu por detrs de portas que se abriram automaticamente na estante.
Contente por ter alguma distrao, Michelle caminhou at o sof, no meio do escritrio, e acomodou-se.
 Provavelmente vou acabar pegando no sono  avisou momentos depois.  Isso sempre acontece quando assisto televiso deitada no sof.
 Fique  vontade  ele respondeu, voltando a concentrar a ateno no jornal.
Michelle no pde conter um sorriso. Tudo naquela casa parecia to confortvel...
Seu palpite demonstrou-se correto, pois quinze minutos depois sentiu que era um sacrifcio manter os olhos abertos. Mas ainda no estava completamente adormecida
quando notou que Gabriel a cobria gentilmente com um cobertor. Seus olhos abriram-se por um instante e um sorriso curvou-lhe os lbios.
 Obrigada  murmurou, fechando-os em seguida.
Passaram-se alguns segundos. Ento sentiu um beijo muito leve em sua testa, e imaginou que aquilo j podia fazer parte de um sonho...
Gabriel ficou parado diante de Michelle por bastante tempo, antes de voltar para sua cadeira de balano. Continuou a olh-la mesmo depois disso... estudando-a, e
tentando imaginar por que aquela mulher o fascinava tanto. Na verdade, fascinara-o a ponto de faz-lo perder a cabea e querer se casar no meio da noite em algum
lugar do Mxico, sem nenhum motivo.
E continuava a provocar-lhe o mesmo sentimento. Fazia-o agir contra a prpria vontade, como nenhuma mulher jamais conseguira. Nem mesmo sua ex-esposa. E, embora
fosse difcil admitir, estava muito feliz por Michelle lhe dar um filho. Parte dele queria t-la sempre por perto, fazendo-o sentir-se justamente como naquele
momento. Na verdade, tinha prazer at mesmo ao v-la dormir como uma criana. Parecia uma coisa ridcula e melosa, mas era assim mesmo que se sentia.
Mas... Por que sentimentos tm que ter algum tipo de explicao, afinal?
Michelle Ames era mesmo muito importante em sua vida. Afinal de contas, estava carregando seu filho no ventre. Ponto final.
Ela moveu-se ligeiramente, e o corao de Gabriel acelerou-se num passe de mgica. Michelle no era seu tipo, ponderou, apesar de possuir lbios carnudos e sensuais
que o tiravam do srio...
O fato  que queria carreg-la at seu prprio quarto e fazer amor como um selvagem, exatamente como tinha acontecido em Acapulco. Ela era extremamente feminina,
o que lhe causava um inexplicvel desequilbrio, levando sua libido s alturas.
Continuou sentado, em silncio, colocando os cotovelos nos braos da cadeira e apoiando o queixo nos dois polegares. Observou cada pequeno movimento de Michelle
at que as chamas da lareira morreram e o ambiente comeou a ficar um pouco frio. Depois disso, fazendo o mnimo possvel de barulho, levantou-se e a tomou nos braos
para carreg-la at a cama.
Foi necessrio um grande esforo para manter o autocontrole. Para conseguir isso, ele respirou profundamente, vrias vezes, durante o percurso pela escada.
Mas, quando a colocou cuidadosamente sob os cobertores macios do quarto de hspedes, disse a si mesmo que aquela seria a ltima vez que agiria como um adolescente
tolo. Na prxima vez que Michelle invadisse sua privacidade, apenas para adormecer em seu sof... praticamente em seus braos... era melhor que estivesse preparada
para acordar em outro quarto, na manh seguinte.
Com ou sem acordo, Gabriel estava cansado de v-la exibindo aquele corpo sexy e escultural sem poder toc-la. Alm disso, durante os ltimos dois meses sua memria
tornara-se mais ntida, fazendo-o reviver inmeras vezes todos os detalhes da noite que tinha passado com Michelle naquele quarto de hotel em Acapulco.
Justamente por isso, sabia muito bem o que estava perdendo.

CAPTULO VIII
Michelle e Gabriel casaram-se dez dias depois, em uma cerimnia simples, realizada no salo do cartrio. Depois disso voltaram  fazenda, para um jantar especial
que Sadie preparara com frutos do mar. Quando chegou a hora de dormir, parecia que nada de extraordinrio ocorrera na vida dos dois.
Depois do episdio no escritrio, Michelle notou que Gabriel preferia manter-se a distncia a maior parte do tempo, e no conseguia compreender por qu. No acontecera
nada entre os dois, afinal, que justificasse aquele estranho comportamento. Mas, quaisquer que fossem as razes dele, Michelle decidiu que no deixaria a situao
a afetar. Assim, no procurou mais juntar-se ao marido no escritrio.
Na verdade, realmente pareciam levar vidas separadas. Oh, claro! Em uma noite Gabriel se prontificara a ajud-la a arrumar a moblia do beb, que a loja mandara
entregar, mas aquela fora a maior aproximao que ocorrera entre os dois nos ltimos dias. E sempre por causa da criana, claro. Mas, na maioria do tempo, ele insistia
em manter-se distante e incomunicvel.
A consulta com o novo obstetra estava marcada para dois dias depois, e Michelle se perguntava se o marido pretendia acompanh-la, como dissera. No ntimo queria
que isso acontecesse, mas por outro lado, sabia que ficaria irritada se ele se dispusesse a fazer-lhe companhia... apenas por causa do beb.
Uma coisa era certa. Com muito pouca coisa para mant-la ocupada durante o dia, e ningum com quem conversar  noite, estava se sentindo solitria.
Felizmente havia Sadie. Michelle era muito grata pela amizade da velha empregada. E por seus conselhos. Na verdade, Big Sadie transformava-se na figura materna
que ela nunca conhecera.
Por outro lado, Gabriel estava to envolvido com os problemas do trabalho, chegando exausto  noite e indo direto para a cama, que nem notava o crescimento da amizade
entre as duas. Numa manh, quando descia a escada, Michelle ouviu Sadie repreend-lo por causa de sua atitude indiferente. Mas a ltima coisa que queria era tornar-se
um obstculo entre os dois. Por isso, mais tarde, pediu  empregada para no discutir mais com Gabriel.
 Eu estou bem  assegurou.  Realmente estou. No precisa entrar em atrito com ele por minha causa.
Sadie encarou-a com desnimo, meneando a cabea e deixando escapar um suspiro.
  melhor aquele homem acordar logo, antes que voc decida voltar para a Califrnia com o beb.
 Fizemos um acordo  Michelle explicou, lembrando-a daquele detalhe importante.  Prometi que ficaria aqui, para que pudssemos criar nosso filho juntos. E pretendo
honrar essa promessa, custe o que custar.
Erguendo a cabea subitamente, a mulher encarou-a com olhos grandes e tristes.
 Sabe, ma cherie, eu odiaria v-la partir. Sentiria terrivelmente sua falta. E Deus sabe que nunca imaginei sentir isso em relao  esposa de Gabriel. Mas, s
vezes, uma mulher precisa simplesmente tomar certas decises...
Michelle arqueou as sobrancelhas.
 No vou embora. De jeito nenhum. Sadie sorriu com tristeza.
 Sei que ainda no est planejando fazer isso. Os olhos de Michelle evitavam deliberadamente o exame da velha empregada.
 Posso lhe fazer uma pergunta?
 Ora, querida criana, sabe muito bem que pode perguntar o que quiser.
Depois de respirar lenta e profundamente, Michelle falou:
 Gabriel era assim to indiferente com sua primeira mulher?
Ela notou imediatamente que a pergunta deixara Sadie aturdida, pois o olhar da velha senhora baixou. Mas, depois de um momento, a anci pareceu recuperar-se, arqueando
as sobrancelhas.
 No. Na verdade ele agia de forma muito diferente. Vivia cobrindo aquela mulher de atenes, alm de presentes aos quais ela no dava a mnima importncia.
 Oh...
Michelle sentiu um aperto estranho no peito. Ento sua intuio estava correta. A atitude de Gabriel em relao a ela era intencional, no algo que pertencia  sua
personalidade. De certa forma, desconfiara daquilo o tempo todo. Mas tudo bem, era uma mulher adulta. Podia muito bem viver com a verdade. Certo? Certo.
Sadie franziu as sobrancelhas ao encar-la.
 s vezes acho que  por isso que ele parece to distante agora. Talvez apenas tenha medo de se ferir outra vez.  A mulher deixou escapar outro suspiro.  Bem,
creio que  melhor eu ir logo cuidar do jantar, querida.
 Tudo bem. Eu estava mesmo pensando em sair para dar uma volta.
Gabriel chegou mais cedo naquela noite, subiu direto para um banho e logo depois desceu a escada, vestindo uma camisa de flanela azul e calas jeans. Surpreendeu
as duas mulheres ao puxar a cadeira de Michelle antes de sentar-se  mesa da sala de jantar. Atnita, ela mal conseguiu murmurar um agradecimento ao sentar-se.
Poucos momentos depois, Sadie inventou uma desculpa, dizendo que no estava com fome, e ento sumiu, indo para outra parte da casa. Depois que ela partiu, Gabriel
iniciou uma conversa amena, perguntando a Michelle o que fizera durante o dia.
Obviamente, seu cotidiano tedioso pde muito bem ser reduzido a uma s frase. Mas o que mais a surpreendeu foi a resposta que o marido deu quando ela fez a mesma
pergunta. Informou tudo o que acontecera no plantio, nos mnimos detalhes, chegando at mesmo a dizer que o trabalho matinal fora atrasado em trs horas por causa
da quebra inesperada de um trator. Quando acabaram de comer, ainda ajudou-a a limpar a mesa e colocar a loua suja na mquina de lavar pratos.
Por mais que Michelle odiasse admitir, estava adorando passar algum tempo ao lado daquele homem. Na verdade, no queria que aquele momento terminasse nunca. E
tinha que agradecer  sbia empregada pelo timing perfeito. Sem dvida, Sadie era a maior responsvel por aqueles momentos de intimidade.
 Quer me acompanhar ao escritrio?  ele perguntou quando Michelle pensou em subir sozinha para o quarto.
 Eu... acho que sim  ela respondeu, sentindo o corao disparar. Era a ltima coisa que esperava ouvi-lo dizer. Ainda no conseguira nem mesmo recuperar-se do
comportamento de Gabriel durante o jantar... e recebia aquele convite! Era bom demais para ser verdade. Precisava beliscar o brao para ver se no estava sonhando.
 Ser que vai passar algum filme bom na televiso hoje?
 Por que est preocupada com isso?  ele indagou, sorrindo. A sbita mudana de comportamento ainda a aturdia.  Provavelmente vai cair no sono, de qualquer forma...
 emendou, com um brilho estranho no olhar. O corao de Michelle batia como um tambor. Tentando disfarar, retribuiu ao sorriso e encolheu os ombros.
 Sim, voc est certo  murmurou.  Isso sempre acaba acontecendo...
Os dois entraram no escritrio e Gabriel fechou a porta. Ento foi at a lareira e colocou algumas achas para acender o fogo. Michelle sentou-se exatamente no mesmo
lugar que ocupara na primeira noite em que assistira televiso e adormecera.
Depois de certificar-se de que as chamas no se apagariam mais, ele limpou as mos e sentou-se na cadeira de balano. Logo, todo o ambiente ficou aquecido. O silncio
s era quebrado pelos estalos da lenha na lareira.
Depois de esticar os braos e massagear o pescoo, Gabriel ajeitou o corpo grande e musculoso na cadeira, procurando por uma posio mais confortvel. Michelle imaginou
que o marido fosse ligar a televiso, o que no aconteceu. Em vez disso, ele continuou encarando-a em silncio, de uma forma intensa e irritante.
 Voc no vai ligar a televiso?  ela finalmente perguntou, cruzando e descruzando as pernas, nervosa. Odiava sentir-se examinada daquela forma.
 Dentro de um minuto  Gabriel respondeu calmamente, como se a pergunta no fosse capaz de quebrar-lhe a concentrao. Para provar esse fato, seus olhos no se
desviaram do rosto dela por um segundo. Mas ento, um momento mais tarde, ele finalmente falou:  Acabei de me lembrar de uma coisa... Desmarquei todos os meus compromissos
de trabalho para poder acompanh-la na consulta mdica, na quarta-feira.
 Obrigada.
Ento ele no esquecera! Bem, mas pelo menos agora ela sabia o motivo do comportamento gentil de Gabriel. E no tinha nada a ver com o fato de ele querer sua companhia
naquela noite. Seu corao ficou apertado.
 E... tem mais uma coisa  ele murmurou.  Durante o jantar, prestei ateno na sua cala.
 Minha cala? O que h de errado com ela?
 Est um pouco justa. Provavelmente teremos que sair para comprar roupas novas.
O olhar que ela lhe dirigiu foi de indignao.
 Ns?
Ele deixou escapar uma risada.
 Ora, apenas imaginei que podamos aproveitar a ida  cidade para a consulta mdica e fazer compras logo depois. Voc realmente vai precisar de peas mais largas.
 Largas...  ela repetiu.  Por acaso est insinuando que estou ficando gorda?
As sobrancelhas dele se arquearam.
 Escute, Michelle... voc no est me entendendo muito bem.
Ela cruzou os braos.
 Oh...  mesmo?
 Sim,  mesmo  Gabriel confirmou.  Bem, eu apenas acho que seria melhor voc se adiantar e comprar logo roupas mais largas para os estgios seguintes da gravidez.
Finalmente Michelle abaixou os olhos para o prprio ventre e deixou escapar um suspiro desanimado.
 Acho que voc est certo. Minha barriga, definitivamente, vem crescendo.
 Com meu filho  ele emendou, num tom de voz que se tornou subitamente mais suave.
Claro que Michelle ainda no estava recuperada da decepo causada pelo fato de o marido apenas desejar sua companhia por querer falar da criana.
 Sim  ela murmurou num fio de voz.  Com seu filho.
 Eu gosto disso  ele comentou.
 Voc gosta  ela repetiu.
 Sim. Gosto muito, mesmo.
 Oh.
Finalmente, depois de vrios momentos tensos, ele recostou-se na cadeira e suspirou.
 De qualquer forma, eu apenas queria dizer que no me incomodo em acompanh-la, se decidir fazer compras.
Michelle assentiu, agastada.
 Muito obrigada.
 timo.
Gabriel sorriu de forma estranha. Um instante depois, apanhou o controle remoto e ligou a televiso.
Notando que a conversa estava encerrada, Michelle virou-se e se deitou no sof. Pegou uma almofada para apoiar a cabea enquanto assistia ao filme.
Como sempre, no demorou muito para que suas plpebras comeassem a ficar mais e mais pesadas. Chegou a pensar em levantar-se e ir para o quarto, mas sentia-se to
confortvel, ao lado do fogo, com Gabriel sentado a poucos passos de distncia...
Momentos depois, porm, adormeceu!
Gabriel continuou sentado na cadeira de balano, observando-a com interesse. Droga, tentara ao mximo manter-se distante daquela mulher. Dissera a si mesmo que,
se trabalhasse duro nos campos, do nascer ao pr-do-sol, sete dias por semana, talvez conseguisse controlar a febre que fazia seu interior arder cada vez que a via.
Mas estava enganado. Redondamente enganado. Seus esforos no tinham funcionado nem um pouco.
Alm disso, as constantes reprimendas de Sadie no o ajudavam em nada. O desejo que sentia por Michelle ficava mais intenso a cada minuto. Era quase insuportvel,
de fato. Quando a vira entrando na sala de jantar naquela noite, com a cala justa que lhe acentuava ainda mais as formas do corpo escultural, quase ficara sem saber
o que dizer.
E agora ela estava ali. No sof, adormecida e vulnervel, como naquela outra noite...
No que Gabriel planejasse fazer amor  fora com uma mulher indefesa. No estava assim to desesperado. Mas pelo menos planejava lev-la para dormir em seu prprio
quarto, para acordar a seu lado na manh seguinte. Ento, depois do caf da manh, pediria a Sadie que levasse as coisas da esposa para l. O que, provavelmente,
deixaria a velha empregada encantada. Sadie ainda no se conformava com o fato de os dois continuarem a dormir em camas separadas mesmo depois do casamento.
Entretanto, se fizesse aquilo poderia atrapalhar ainda mais as coisas. De qualquer forma, precisava fazer algo para conseguir o que queria, e precisava de Michelle.
Eram marido e mulher, afinal de contas. Da maneira como via as coisas, o sexo seria normal no relacionamento. Por que no desfrutar de uma vida conjugal gratificante
se iam passar tantos anos juntos?
Ergueu-a nos braos e no houve nenhum protesto, a no ser um gemido. Mas ento, bem no meio da escada, Michelle passou-lhe um brao ao redor do pescoo. Ele teve
medo de perder o controle naquele exato instante. Por que diabos ela insistia em tornar as coisas mais difceis?
Continuou a subir a escadaria e foi direto para seu quarto. Ao chegar l, colocou-a no lado esquerdo da cama e tirou-lhe a cala jeans, para que ela ficasse um pouco
mais  vontade. Na verdade, Michelle at mesmo levantou o quadril, para facilitar a tarefa.
Gabriel teve que prender a respirao ao ver as pernas bem torneadas. Queria t-las ao redor do corpo. Na verdade, queria v-la completamente nua, como naquela
noite em Acapulco. E veria, mais cedo ou mais tarde. Mas no devia ser precipitado. Michelle j ficaria chocada o bastante ao despertar naquela cama, pela manh.
Depois de se livrar das prprias roupas, ainda quentes por causa do fogo da lareira, Gabriel deitou-se sob os cobertores. Queria abraar a esposa e sentir o calor
de seu corpo. Ela pareceu gostar.
E ele podia sentir a prpria pele se incendiando por causa do desejo.
Mas devia algo quela mulher: respeito. Afinal de contas, tratava-se de sua mulher, a me de seu filho. Podia esperar. Sim, dizia a si mesmo repetidamente. Podia
esperar.
Ao tomar essa deciso, passou os braos ao redor da cintura de Michelle e ficou imvel at adormecer.
Quando acordou, na manh seguinte, antes do alvorecer, notou que ela se aninhara ainda mais em seu corpo. Alm disso, suas posies tinham se invertido durante
a noite. Gabriel estava de costas, e era ela quem o abraava pela cintura.
Precisava sair dali bem rpido, para no ser consumido pela excitao instantnea que aquilo lhe causou. Mas Michelle murmurou algo e apertou-o ainda mais.
"Droga!", ele pensou.
Tentara ao mximo, sem dvida, mas sentia que no era mais capaz de se conter.
 Michelle?  chamou, com a voz grave e rouca turvada pelo desejo. Virou-se para segur-la pela cabea com gentileza.  Eu quero voc.
Sem abrir os olhos, ela sorriu e manteve os lbios entreabertos, numa atitude convidativa.
 Beije-me  pediu, semi-adormecida.
Foi exatamente o que ele fez. Passional e vagarosamente, com a alma queimando. E Michelle respondeu com igual vigor, gemendo e fazendo-o acreditar que no queria
que aquilo parasse. Nunca.
Ento Gabriel relaxou e deixou que as coisas acontecessem, fazendo o que imaginava que a esposa queria... e o que ele mesmo queria. Michelle abandonou-se completamente
s suas carcias vidas, e, quando o primeiro raio de sol surgiu no horizonte, encontrou-os deitados lado a lado, exaustos.
Ambos sabiam, no ntimo, que haviam acabado de compartilhar algo muito especial. Mais, bem mais do que apenas sexo. Precisavam um do outro de uma forma incrvel.
Desesperada. Mas, claro, nenhum dos dois jamais admitiria isso.
Subitamente, Sadie bateu na porta do quarto e chamou:
 Gabe? Por que ainda no se levantou? J est atrasado...
Ele limpou a garganta:
 Vou descer em um minuto. Acabei dormindo demais.
 Ora, seu malandro!  a empregada murmurou.
Logo depois seus passos puderam ser ouvidos, descendo a escada devagar.
Claro que Gabriel sabia que precisava se levantar e ir para o trabalho, mas no queria sair do lado de Michelle. Finalmente, erguendo-se, ela murmurou:
 Por que me trouxe para c ontem  noite? Por que no me levou para minha prpria cama?
Gabriel continuou a olhar pela janela, com uma expresso pensativa.
 No sei. Apenas decidi traz-la.
 Tnhamos um acordo. E isso no fazia parte dele.
 Ainda temos um acordo. Foi um pouco modificado, porque nossa relao tambm mudou. Era inevitvel. Eu sabia disso... e acho que voc tambm.
 Bobagem  Michelle retrucou.
 Ah, ? Pois eu no a ouvi protestar um instante sequer durante o que acabamos de fazer. Na verdade, posso dizer que tive exatamente a impresso contrria.
 O que esperava?  ela replicou, finalmente virando-se para encar-lo.  No  todo dia que acordo numa cama com um homem nu a meu lado.
 Voc podia ir embora. Eu no a deteria.
 Foi um truque sujo, e voc sabe disso.
 Talvez  ele murmurou.  Mas quer mesmo saber de uma coisa?  continuou, removendo subitamente as mantas e os lenis que cobriam seu corpo nu.  Eu no me arrependo.
Temos uma vida longa pela frente, e passaremos a maior parte dela juntos. Por que no aproveitar um pouco?
Michelle ficou visivelmente plida.
 No posso acreditar que voc tenha coragem de dizer uma coisa dessas!
Gabriel deu a volta na cama e parou, as mos na cintura.
 E por que no? Ns somos casados, esqueceu?
Ela engoliu em seco ao olhar para o corpo msculo e musculoso. Um momento depois, ele virou-lhe as costas e comeou a se vestir.
 Quando eu descer, vou dizer a Sadie que traga suas coisas para este quarto ainda hoje. Somos marido e mulher. De agora em diante vamos dormir juntos.
De acordo com Gabriel, aquele era um assunto encerrado. Nada de discusso. E nenhum sinal das trs palavrinhas que fariam toda a diferena do mundo...
Ele demorou pouco tempo para se vestir, e ao sair despediu-se por sobre o ombro:
 Vejo voc  noite.
Michelle precisou reunir muita coragem para descer a escada e encarar Sadie, mais tarde. No que temesse a desaprovao da velha empregada quanto ao assunto. Sabia
muito bem que ela queria muito v-los juntos e em paz. Mas a anci no tinha como saber que Gabriel queria mudar a situao apenas por um motivo: sexo.
Era difcil para a prpria Michelle admitir, mas comeara a se apaixonar pelo marido... o pai da criana que estava esperando. No princpio, tivera a esperana
de ser correspondida, embora esperasse dele muito mais do que sexo. Mas tudo bem, pelo menos naquele momento a mudana significava um avano. Enquanto pudesse manter
um fio de esperana, ficaria bem.
Sadie estava na cozinha, cantando uma melodia em cajun, o estranho dialeto francs da regio, quando Michelle desceu. A empregada imediatamente demonstrou aprovar
a mudana para o quarto de Gabriel.
 No foi minha idia  Michelle murmurou.
 Isso no faz diferena. Aconteceu. E  isso que importa.
 Mas voc no entende...
 Entendo sim  a mulher interrompeu, encarando-a diretamente.  S espero que agora voc no venha me dizer que no ama meu Gabe.
Depois de respirar profundamente, Michelle resolveu abrir seu corao:
 No vou lhe dizer isso, e voc j me conhece bem o bastante para saber. Mas acho que dessa vez est enganada sobre Gabriel. Ele no me ama.
 Ele pode no saber ainda, mas garanto que ama, sim  Sadie respondeu calmamente.
 Estou lhe dizendo a verdade. Gabriel simplesmente acha que, uma vez que somos casados, devemos aproveitar os benefcios que advm dessa situao... se  que entende
o que estou falando.
 No nasci ontem, ma cherie. E sei exatamente a que voc se refere. Mas tambm tenho certeza de que mais cedo ou mais tarde o homem vai cair em si e perceber o
verdadeiro motivo que o faz quer-la a seu lado. Pode acreditar  Sadie emendou, confiante. Conheo bem o meu Gabe.
 Continuo achando que voc est enganada  Michelle insistiu.
 Bem, creio que teremos que esperar algum tempo para saber, no acha?
 No alimente muito essas idias. Gabriel controla os prprios sentimentos, e voc sabe disso muito bem.
A empregada sorriu.
 Como eu j disse, acho que voc no deve se preocupar. Sei do que estou falando.
Olhando de relance pela janela, para os campos onde sabia que o marido estava trabalhando, Michelle suspirou.
 Espero que saiba mesmo. Realmente espero que sim. Infelizmente, as indicaes pareciam confirmar as suspeitas de Michelle. No final daquele dia, Gabriel chegou
muito cansado do trabalho, e quase no falou com ela antes de dormir. O mesmo ocorreu na manh seguinte, quando saiu cedo, antes de o sol nascer.
Uma tristeza profunda tomou conta de Michelle, que passava a maior parte do tempo cuidando apenas da correspondncia. Mandara currculos para diversos anncios classificados,
que vira nos jornais de Baton Rouge e de Lafayette. Alguns haviam enviado respostas.
Michelle precisava manter os contatos, embora no tivesse inteno de comear a trabalhar antes que a criana nascesse. Quando aquilo acontecesse, ento poderia
se dedicar completamente ao reinicio da carreira. Afinal, era esse o maior objetivo de sua vida. No era?

CAPTULO IX
Michelle gostou do novo obstetra. Muito jovem e entusiasmado, respondeu a todas as perguntas sobre gravidez. Na verdade, comentou que mais pais deveriam ser to
interessados pelas esposas quanto Gabriel. Mas Michelle no se enganava sobre aquele interesse. Sabia que era apenas no beb que ele pensava, no nela.
Pena que no pudesse ser de outra forma.
A quarta-feira pareceu fazer bem a ele. At mesmo a visita s lojas o divertiu. No apenas deu palpites sobre todas as roupas para gestantes que ela escolheu, como
tambm fez o mesmo em relao a duas outras mes que se encontravam na loja. J no trocador, as duas mulheres disseram que Michelle era uma pessoa de muita sorte
por ter um marido to doce e gentil.
Logo que voltaram para casa naquela tarde, porm, ele tornou a assumir o mesmo ar distante de antes. As semanas seguintes se passaram de forma muito semelhante.
O nico momento em que ela pareceu v-lo sinceramente emocionado foi na segunda visita ao obstetra, quando o mdico deixou-os ouvir o corao do beb.
Quando as noites chegavam, faziam amor, e em alguns momentos Michelle tinha a impresso de que algo mudara. Mas aquilo nunca se traduzia em palavras nos lbios
de Gabriel. Entretanto, para ela, era melhor t-lo  noite do que desperdiar essa chance. Pelo menos assim alimentava a esperana de que o marido viesse a am-la
um dia.
Pensava justamente nisso enquanto descia a escada, distrada, depois de acordar tarde numa manh muito fria. Uma dobra no tapete, porm, fez com que tropeasse quando
estava a poucos degraus do cho. O susto a fez gritar. Poucos segundos depois a boa e velha Sadie chegou em seu socorro, com uma expresso preocupada.
 Oh, querida, voc est bem?
 Eu escorreguei  Michelle explicou, massageando a cabea, que batera na parede quando ela tentara agarrar-se ao corrimo. Respirando profundamente, tentou se acalmar.
Sadie mostrava-se muito plida.
 Acho melhor chamar uma ambulncia.
 No, eu estou bem.
 No devemos correr nenhum risco  a empregada ponderou, arqueando as sobrancelhas.  Vou mandar algum procurar Gabe.  Ao dizer isso, correu para a cozinha, voltando
um momento depois.  Mandei um rapaz que estava trabalhando no celeiro buscar Gabe. Logo ele estar aqui.
 Talvez eu deva me sentar um pouco  Michelle considerou, sentindo-se um pouco trmula.
Certamente no era nada srio, disse a si mesma. Ainda bem que fora apenas uma pequena queda... Sadie ajudou-a a chegar at o sof da sala de estar.
 Droga, Gabe podia se apressar  a mulher reclamou com uma expresso assustada.
Michelle honestamente achava que estava bem. No sentia nenhuma dor, exceto no ponto onde batera a cabea. Provavelmente tambm torcera o tornozelo, mas nada alm
disso.
No geral, sentia-se bem. O que felizmente significava que o beb tambm devia estar em perfeitas condies.
Seus pensamentos foram interrompidos quando a porta da cozinha abriu-se com um estrondo. Um momento depois Gabriel entrou correndo na sala, o rosto completamente
transtornado pela preocupao.
 O que aconteceu?  perguntou, ajoelhando-se diante de Michelle.
 Escorreguei e quase ca  ela murmurou, incapaz de conter as lgrimas. Seus lbios tremiam bastante.  Acha que o beb est bem?
 No sei  ele respondeu, franzindo as sobrancelhas.  Sim, acho que est bem  emendou, ao ver o pnico insinuar-se no rosto da esposa.
 Eu devia ter tomado mais cuidado... arrumado aquele tapete estpido antes...  Sadie lamentou, culpando-se pelo que acontecera.
 No foi sua culpa  Michelle apressou-se em dizer.  Eu  que devia olhar melhor por onde ando.
 Chame j uma ambulncia, Sadie  Gabriel ordenou.
A empregada afastou-se e discou o nmero de emergncia. Imaginando ter prejudicado a criana de alguma forma, Michelle no foi mais capaz de conter as lgrimas.
 Eu sinto muito  disse, soluando.  Sinto... muito mesmo.
 Tudo bem. No fique assustada  Gabriel murmurou. Virando-se novamente para Sadie, encarou-a com ar preocupado.  O servio de emergncia fez alguma recomendao?
 Disseram para ela no se mover mais do que o necessrio.
Mais uma vez ele encarou Michelle.
 Est se sentindo melhor?
A cabea doa, e ela comeava a sentir nuseas.
 Sim.
Afastando os cabelos de seu rosto com gentileza, Gabriel insistiu:
 Tem certeza?
Michelle sentia-se mais fraca.
 Eu bati a cabea...
 Sadie  ele gritou por sobre o ombro  traga uma toalha com gelo.
A boa senhora no demorou nem um minuto para fazer isso. Retornou com uma toalha azul.
 Estou sentindo um pouco de enjo  Michelle murmurou debilmente quando ele comeou a fazer a compressa.
 Tudo bem,  normal. No vou sair daqui nem por um segundo. Estarei sempre a seu lado.
A ambulncia chegou em pouco tempo. Logo que Michelle foi acomodada na parte de trs, o veculo partiu direto para o hospital. Gabriel e Sadie seguiram de perto,
na picape.
O obstetra foi chamado e requisitou uma ultrasonografia. Estudando as imagens no monitor, informou que aparentemente o beb no sofrer nada com a queda.
Michelle, entretanto, tivera uma pequena concusso na parte lateral da cabea, o que estava causando a nusea e a tontura. Ao dizer aquilo, o mdico recomendou-lhe
repouso absoluto durante duas semanas, abstendo-se de qualquer atividade fsica, inclusive sexo.
Nem Gabriel nem Michelle comentaram a ordem, limitando-se a uma curta troca de olhares. Ele assegurou ao obstetra que as instrues seriam seguidas  risca. E s
ento, depois de oito longas horas, Michelle finalmente recebeu alta.
Quando chegaram  fazenda, Gabriel carregou-a nos braos para o quarto. Antes de subir, insistiu para que Sadie fosse descansar um pouco tambm. J no quarto, ajudou
Michelle a despir-se e a colocar uma camisola confortvel. Ento, depois de acomod-la e dar algumas instrues, saiu do quarto dizendo que ia preparar algo para
aliment-la. Minutos depois voltou para o quarto com uma bandeja repleta de comida. Michelle notou que ele havia colocado dois pratos de sopa na bandeja.
 No havia sentido em comer sozinho l embaixo, com voc presa aqui na cama  Gabriel apressou-se em explicar.
 Concordo  ela respondeu, apreciando sinceramente a atitude do marido.
Pelo menos no podia queixar-se de falta de ateno, embora no ntimo desejasse compartilhar muito mais... Nesse momento, Gabriel olhou para a velha lareira.
 No a uso h muitos anos. Mas estava imaginando que, uma vez que voc vai ficar bastante tempo aqui, talvez seja melhor limp-la, para que possamos acend-la.
Michelle sabia que no devia alimentar esperanas, embora se sentisse muito contente por causa da ateno do marido. No fundo, Gabriel estava preocupado apenas com
a mulher que ia lhe dar um filho, nada mais.
 Obrigada. Ser muita gentileza da sua parte.
Ele sorriu.
 Vou arrumar tambm uma televiso porttil... embora isso provavelmente a faa dormir o tempo todo.
Ela tambm sorriu.
 Acho que voc est certo.
Os dois comeram em silncio. Depois de juntar os pratos sujos, Gabriel desceu, subindo para cuidar da lareira logo depois. Ao terminar a limpeza, voltou a descer,
para apanhar algumas achas de lenha, e em seguida acendeu o fogo, que aqueceu confortavelmente todo o ambiente. Tomou ento um banho e foi para a cama. Nem seria
necessrio dizer que quela altura Michelle j estava bastante ansiosa para t-lo a seu lado...
 Boa noite  ele disse, virando-se para apagar a lmpada do abajur.
 Boa noite.
 Sua cabea ainda est doendo?
 S um pouquinho.
 Venha c  Gabriel murmurou roucamente, estendendo os braos de forma convidativa.  Quero abra-la um pouco.  Michelle no argumentou, aceitando aquilo de
bom grado. Ele estava nu, como sempre. Mas o mdico havia dito...  Est melhor assim?
 Sim, muito.
 Ento durma bem.
 Voc tambm.
Foi assim que as coisas transcorreram durante os dias seguintes. Era bvio que a falta de sexo desagradava muito a ambos, mas era mais seguro para o beb. Michelle
ganhava peso rapidamente, a primavera se aproximava e o clima ia ficando cada vez mais ameno. Sadie a mimava como se tratasse a prpria filha. Tudo corria bem.
Um belo dia, inesperadamente, o beb deu um chute. Aconteceu durante o jantar, quando Michelle, Gabriel e Sadie estavam sentados  mesa. Deixando cair o garfo, ela
quase engasgou, levando as mos automaticamente para a barriga.
 O que h de errado?  Gabriel perguntou, estreitando os olhos.
Michelle riu, satisfeita.
 Foi o beb  exclamou, excitada.  Ele acabou de me chutar.
O rosto de Gabriel demonstrava espanto.
 Ele chutou voc?
 Sim.
 Est brincando...
 No. Oh...  Michelle disse um momento depois.  Ele acabou de fazer outra vez.
Imediatamente, Gabriel afastou a cadeira e em uma frao de segundo estava a seu lado. Sem pensar, ela tomou-lhe a mo, colocando-a sobre o ventre com delicadeza.
O ambiente encheu-se de silncio e os dois compartilharam uma espera tensa.
Alguns segundos se passaram. E ento... bingo! O beb chutou novamente.
O momento de felicidade que experimentaram, porm, no mudava muito a forma como a situao dos dois ia se desenrolando. Na opinio de Michelle, a falta de sexo
nas ltimas semanas os afastara muito.
Um dos momentos de maior tenso, entretanto, aconteceu justamente quando ela tentou melhorar as coisas, desejando demonstrar interesse pelas tarefas domsticas.
Certa manh, resolveu mais uma vez exercitar-se na cozinha, pedindo a Sadie que a acompanhasse, passo a passo, na feitura de uma torta de ma. Queria impressionar
Gabriel, demonstrando que pelo menos se esforava para aprender um pouco sobre aquele assunto.
Dessa vez, a massa ficou perfeita, assim como o recheio. Por isso, dando a lio por encerrada, a velha empregada deixou-a sozinha, com a nica incumbncia de verificar
o ponto em que a torta ficaria perfeitamente assada. Mas, sentindo-se entediada por no fazer nada na cozinha, depois de algum tempo Michelle foi at o escritrio
e distraiu-se com as fotos que Gabriel tirara em Acapulco.
O resultado dessa pequena distrao quase se transformou numa catstrofe...
Algum tempo depois, toda a casa estava envolta por uma nuvem de fumaa negra, e o forno quase chegou a pegar fogo. Isso s no aconteceu porque Gabriel voltava da
plantao naquele momento. Depois de acabar com o princpio de incndio, ele atacou Michelle verbalmente, dizendo-lhe que colocara a vida de todos em risco por
causa de sua negligncia.
As palavras a feriram muito. Nem mesmo as desculpas dele, que vieram naquela mesma noite, graas  admoestao dura de Sadie na mesa de jantar, serviram para melhorar
as coisas.
Na verdade, mais do que nunca Gabriel comportava-se como um verdadeiro estranho.
Mas aquela no era uma grande surpresa para Michelle. No fundo, comeava a duvidar do acordo que tinham feito, achando que no agentaria por muito tempo. Como podia
viver ao lado de um homem que no a amava?
Dois dias se passaram. Gabriel era sempre polido, mas nada alm disso.
Na manh seguinte, Sadie atendeu ao telefone e chamou Michelle imediatamente, dizendo tratar-se de um interurbano. O corao dela se acelerou. Talvez finalmente
o pai tivesse lembrado de que existia...
Mas no era ele. Infelizmente era a secretria, e a notcia que tinha a dar no era nada boa. Sylvan Ames havia sofrido um ataque cardaco durante a noite, e fora
internado no centro de terapia intensiva de um hospital de San Diego. Estava chamando por Michelle.
Atnita, ela assegurou que tomaria o prximo vo para a Califrnia. Ento, depois de explicar a Sadie o que havia acontecido, ligou para o aeroporto de Nova Orleans
e fez reserva para um vo que partiria em menos de quatro horas.
Com pouco tempo para preparar a bagagem, correu para o quarto, seguida de perto pela velha empregada.
 O que ser que Gabe vai pensar por voc ter que partir assim de repente?
Michelle nem se incomodou em responder  pergunta. Naquele momento, estava preocupada com assuntos muito diferentes. E, na verdade, Gabriel tinha dado provas mais
do que suficientes que a presena dela no lhe faria a menor falta. Talvez apenas ficasse preocupado por causa do beb, nada mais.
Sadie ajudou-a a dobrar as roupas que escolhera para viajar, e passou algum tempo em silncio antes de arriscar-se a falar novamente:
 Talvez eu deva procur-lo na plantao e dizer o que est acontecendo...
 No precisa fazer isso. Planejo chamar um txi para me levar ao aeroporto. Assim, no terei nem mesmo que incomod-lo.
 Mas talvez seja melhor dizer a ele, de qualquer maneira  Sadie insistiu. Um instante depois, sem esperar pela resposta, saiu do quarto apressada e com uma expresso
preocupada.
Michelle estava to entretida com os prprios pensamentos que achou melhor nada dizer. Pela primeira vez em sua vida, o pai precisava dela.
Terminou de arrumar a bagagem e fechou as malas. Ento se virou para ir at o vestbulo, apanhar a roupa que escolhera para viajar. Foi quando viu Gabriel entrando
no quarto. Com as sobrancelhas franzidas, ele tirou o bon que usava e encarou-a.
 O que est fazendo?  perguntou.
 Vou viajar  ela respondeu calmamente, mas ao mesmo tempo sentiu o corao acelerar-se de maneira selvagem e inexplicvel.  Meu pai teve um ataque cardaco e
preciso v-lo o mais rpido possvel.
Os olhos de Gabriel estreitaram-se.
 Simples assim?  ele disse, avanando.  Sem nem mesmo se incomodar em me falar nada?
Michelle encolheu os ombros.
 Eu sabia que Sadie faria isso.
 Mas voc no  ele murmurou num tom duro e ressentido.
 No  ela replicou, evitando encar-lo.  Eu no.  Em seguida passou por Gabriel e tirou de um cabide o vestido que escolhera.  Francamente, achei que isso no
fosse incomod-lo nem um pouco.
 Incomoda  ele murmurou.  Voc  minha mulher, afinal.
Depois de jogar o vestido sobre a cama, Michelle tirou de l as malas, colocando-as no cho.
 Isso  discutvel  considerou com frieza, erguendo os olhos. Embora usasse um tom seco e objetivo, sentia muita dificuldade para falar.
 Ns temos um acordo, lembra-se?
 Sei disso.
 Pensa em manter sua palavra?
Respirando profundamente, Michelle desviou o olhar.
 Nesse momento, s consigo pensar que meu pai est numa cama de hospital, chamando por mim.
Gabriel no se moveu um centmetro sequer, mas suas feies denotavam claramente a frustrao que sentia.
 Voc est certa  murmurou.
L mesmo, diante dele, Michelle tirou a roupa que usava e trocou-a pelo modelo escolhido para a viagem. Depois passou por Gabriel outra vez, para apanhar as malas.
Foi quando ele a deteve, segurando-a pelo brao.
 Quando vai partir?
 Um txi deve chegar a qualquer momento, para me levar ao aeroporto.
 Entendo...  Ele virou-se e apanhou as malas, emendando em seguida:  Nesse caso, deixe-me pelo menos carregar sua bagagem at l embaixo.
 Obrigada.
Gabriel assentiu com um gesto de cabea e desceu calado, levando consigo as malas.
Quando Michelle chegou  sala de estar, minutos depois, Sadie informou-a de que ele j voltara a trabalhar na plantao.
 Gabe no gosta muito de despedidas  a mulher explicou, meneando a cabea, desanimada.  Nem mesmo quando so apenas temporrias. Ele me pediu
para lhe dizer at logo.
Com um sorriso fingido nos lbios, Michelle assentiu.
 Diga-lhe que fiz o mesmo.
Mas, quando o txi chegou para lev-la para a viagem de duas horas at Nova Orleans, Michelle no tinha nenhuma dvida de que seu retorno para aquela fazenda no
aconteceria. No ntimo, sabia que seria incapaz de voltar para um homem que jamais fora capaz de dizer que a amava.
E ento, quando se despediu de Sadie, sentiu o corao partido em milhes de pedaos.

CAPTULO X
Para piorar as coisas, San Diego pareceu completamente estranha a Michelle. Era como se muitos anos houvessem se passado desde que ela deixara a cidade, no poucos
meses. No pertencia mais quele lugar. Tudo soava muito barulhento, frentico... e bem mais frio.
Sentia falta do campo. Da quietude e do ar fresco. Sentia falta de Sadie... de sua comida deliciosa e de sua sabedoria. Mas o que mais a feria era a saudade de Gabriel,
o homem que amava desesperadamente e que, apesar disso, no parecia se importar nem um pouco com sua existncia.
Mesmo naquele momento, parte dela continuava desejando o abrao forte, aconchegante, do marido. Mas aquilo nunca mais iria acontecer. Sabia que Gabriel esperava
por seu retorno, mas tinha certeza de que no conseguiria voltar. No sem deixar de respeitar os prprios sentimentos. E, surpreendentemente, aquilo nada tinha
a ver com o fato de ter ou no uma carreira. Era uma sensao ntima e inexplicvel. Merecia muito mais do que um casamento sem amor.
Se pelo menos tivesse recebido uma carta ou telefonema dele nos ltimos dias... Sem dvida, teria ajudado. De alguma forma, Michelle arrumaria uma desculpa qualquer
para perdo-lo pela indiferena depois do acidente na escada. Mas j estava a trs semanas na Califrnia, e a nica pessoa que se preocupava em manter contato era
Sadie, que ligava todos os dias.
Mas a velha empregada nunca mencionava o nome de Gabriel. Michelle sabia que a mulher sem dvida lhe passava todas as informaes recebidas. Na verdade, sabia que
devia ser o prprio Gabriel que a mandava fazer as ligaes. Mas no era a mesma coisa.
A distncia entre o casal aumentava dia-a-dia, e, a despeito da necessidade que ele parecia ter em relao  criana, talvez se sentisse ao mesmo tempo aliviado
por ver Michelle fora de sua vida, nem que fosse apenas por algum tempo.
Num dos telefonemas de Sadie, ela julgou t-lo ouvido ao fundo. Mas no podia ter certeza. Por isso, no ousou perguntar nada  velha senhora. Bem, talvez estivesse
apenas imaginando coisas. Afinal de contas, aquele telefonema em particular fora feito no meio da tarde, num horrio em que Gabriel normalmente estava na plantao,
com os outros homens.
Definitivamente, a falta que Michelle sentia de Gabriel fazia com que comeasse a imaginar coisas.
Por outro lado, o pai, felizmente, vinha se recuperando bem mais rpido do que a equipe mdica esperava, embora a reabilitao completa ainda demorasse muitos
meses. O ponto positivo era que Sylvan resistira bem  srie de operaes a que fora submetido, e por isso receberia alta em menos de uma semana.
Na noite anterior  da sada do pai do hospital, Michelle ficou com ele por mais tempo que o usual e acabou voltando para casa por volta das oito e meia da noite.
Quando abriu a porta, notou que o telefone tocava. Sem saber ao certo o que esperar, correu para atend-lo, com a respirao contida. Talvez o pai tivesse piorado...
 Al!  disse num tom ansioso.
 Michelle...  Gabriel murmurou vrios segundos depois.  Sou eu.
 Oh!  Ela suspirou, sentindo alvio.
Teve que respirar profundamente. Cada vez que o telefone tocara, nas ltimas semanas, esperara ouvir a voz do marido do outro lado do aparelho. Mas, agora que aquilo
acontecera, no sabia ao certo o que dizer.
 Como seu pai est?  ele perguntou.  Sadie tem me mantido informado sobre a recuperao. Sei que estava prestes a receber alta...
 Ele vai sair amanh  Michelle informou, tentando desesperadamente manter a voz sob controle.
 Isso  timo  Gabriel murmurou, de certa forma parecendo to sem jeito quanto ela.  E como vo indo voc e o beb?
 Muito bem.
 Isso  timo  ele repetiu.  Eu... ahn...  Limpou a garganta, como se procurasse algum tempo para escolher as palavras.  Bem, eu estava vendo outra vez aquelas
fotografias que tirei em Acapulco...
  mesmo?
 Bem, quero dizer... olhei os retratos... e voc est em muitos deles...
 Entendo  ela replicou, sentindo-se tomada pelas mesmas recordaes. Mas onde, afinal, ele queria chegar com aquela conversa?
Gabriel voltou a limpar a garganta.
 Eu... bem, pensei que voc poderia gostar de mostrar as fotos para seu pai. Eu poderia mand-las.
 As fotos?  Michelle perguntou, intrigada.
 Sim... E apenas uma idia, mas pensei que ele poderia gostar, quem sabe?
 ... quem sabe?
Um longo e pesado silncio seguiu-se quelas palavras. Como se no soubesse o que fazer, ele limpou a garganta pela terceira vez.
 Eu tambm queria lhe perguntar... quer dizer... se voc sabe quando vai voltar para casa.
A fazenda. Como ela gostaria de estar l! Se Gabriel pelo menos realmente quisesse sua presena... Ela e o beb, e no apenas a criana...
Sentindo um aperto no corao, Michelle deixou escapar um suspiro.
 No sei. Eu simplesmente no sei se conseguirei voltar para voc.
 O que quer dizer com "no sei se conseguirei"? Claro que vai conseguir. Posso ir at a, busc-la.  s pedir.
 O problema no  esse  Michelle retrucou com tristeza.  Acontece que no sei ao certo se quero mesmo voltar.
Houve outra longa e sofrida pausa. Finalmente ele voltou a falar:
 Escute, sei que fui muito bruto por ocasio daquele incidente com a torta, mas j me desculpei por isso. Estava um pouco tenso por causa dos problemas na plantao.
Alm disso, fizemos um acordo.
 Eu me lembro.
 Sabe o que vai acontecer se decidir quebr-lo?
 Sim. Teremos que dividir a custdia de nosso filho.
 Exatamente. E  isso mesmo que quer?
Michelle suspirou profundamente.
 Fiz o melhor que pude  replicou, lutando bravamente para conter as lgrimas que lhe encharcavam os olhos.
 Voc est cometendo um erro.
 No seria o meu primeiro engano, no  mesmo?  ela perguntou, e, pelo silncio que se seguiu, soube que as palavras o tinham atingido em cheio.
Talvez Gabriel estivesse pensando nos erros que ele prprio cometera, e o ltimo incidente, que citara, a catstrofe que Michelle quase causara ao tentar agradar,
fazendo aquela maldita torta de ma, nada tinha a ver com o assunto. Havia enganos muito mais graves dos quais ele podia se arrepender. Ter se casado com ela, por
exemplo.
 Imaginei que voc fosse honrar sua palavra  ele finalmente murmurou.
 Infelizmente as coisas no correram como planejamos.
Gabriel suspirou do outro lado da linha. E ento, um momento depois, voltou a falar. Mas dessa vez sua voz traa uma raiva incontida:
 E melhor pensar bem antes de procurar um advogado para cuidar do divrcio.
 Pensar em qu?  ela replicou secamente.
Considerando a tenso do momento, sentia-se orgulhosa por conseguir manter um mnimo de autocontrole.
 Bem, deixe para l  Gabriel murmurou por fim, emendando um instante depois:  Ficarei em contato.  E ento desligou.
Depois de suspirar, Michelle virou-se e caminhou lentamente at o quarto. Seu corao estava muito ferido, o que ela no podia evitar. Quando fechou a porta, porm,
no foi mais capaz de manter o controle e, atirando-se na cama, comeou a chorar.
Massagear a nuca com fora ajudava a tirar um pouco a tenso. Depois de fazer isso, Gabriel saiu e examinou detidamente a noite escura, respirando o ar puro e tentando
organizar os prprios pensamentos.
Maldio. Michelle que se danasse. Tinha muito sangue-frio para simplesmente decidir pr um fim ao casamento daquele jeito. Quem pensava que era, afinal? No podia
fazer aquilo. No podia ir embora e abandon-lo. Como pai da criana, ele tinha seus direitos.
Suspirou profundamente. Ah, para o diabo com direitos e coisas do gnero! No era aquilo que importava... no mais. Francamente, era ela que importava. Michelle
entrara em sua vida e conquistara seu corao. Mas decidira partir de uma hora para outra...
No era justo. No depois que haviam decidido criar aquela criana juntos. No depois de terem feito amor mais vezes do que ele conseguia se lembrar. Ser que aquilo
no contava?
O que mais Michelle podia querer? Conseguira at mesmo lev-lo ao casamento... e agora, apesar de Gabriel ter lutado contra aquilo o tempo todo, tambm conseguira
faz-lo apaixonar-se.
Ele tentara arduamente evitar que aquela paixo acontecesse. Chegara at mesmo a dizer que no se importava com ela, enganando a si mesmo quando sabia sentir justamente
o contrrio. Michelle o enlouquecia, o que na verdade nada tinha a ver com a criana. A culpa era dela, que virar sua cabea desde aquela primeira noite, no
Mxico. Desde ento, no parar de atorment-lo.
Gabriel no queria que ela partisse. Nunca. Queria construir uma vida ao lado daquela mulher. Na verdade, era o que mais desejava na vida.
Tinha certeza de que ela pensava do mesmo jeito. Mas, at aquele momento, contivera os prprios sentimentos, deixando-a na incerteza. Aquilo precisava mudar.
Comportara-se como um tolo ao tentar proteger apenas o prprio corao. Devia a Michelle muitas e sinceras desculpas por isso. Subitamente as palavras de uma cano
que ouvira h muito tempo vieram-lhe  mente:
Subir na montanha mais alta... Mergulhar no mar mais profundo...
Sim, ele estava preparado para fazer aquelas coisas, e bem mais se necessrio, para que Michelle acreditasse em sua sinceridade. Ela era seu mundo. Ela e o beb.
E aquela casa era o lar de ambos. De uma maneira ou outra, precisava faz-la enxergar isso. Quanto antes, melhor.
Na manh seguinte, desceu para o caf com nimo renovado e anunciou a Sadie que pretendia ir para a Califrnia naquele mesmo dia. Sem hesitar, a velha empregada
aprovou.
 Voc demorou tempo demais para cair em si. Vou arrumar suas malas em um instante, para que no perca nem mais um minuto.
E ento, num impulso que vinha do fundo do corao, comeou a cantar alegremente uma das canes francesas que entoava quando se sentia alegre.
Gabriel sorriu.
 Eu sabia que podia contar com voc.  Beijou-a no rosto.  Obrigado por tudo.
Ela sorriu e afastou-se com um olhar divertido.
 Agora saia logo daqui, seu malandro. Voc tem muito trabalho a fazer antes de embarcar.
Ele riu e saiu rapidamente, assobiando a mesma melodia que Sadie cantara enquanto ia para a plantao, dar instrues ao capataz.
O sol se punha no horizonte quando Gabriel finalmente chegou a San Diego. Tomou um txi e indicou o endereo do pai de Michelle. Ficava em um bairro luxuoso, localizado
numa das regies mais elegantes da cidade.
Sem deixar que a fachada imponente da manso o intimidasse, ele caminhou diretamente para a porta, tocou a campainha e ficou  espera. Alguns minutos depois um mordomo
muito alto e antiptico atendeu.
 Estou aqui para ver minha mulher  Gabriel anunciou.
O mordomo encarou-o com desconfiana, examinando minuciosamente as roupas esportivas e o bon que ele usava.
 Ento voc deve ser o Sr. Lafleur.
 Isso mesmo.
O homem limpou a garganta de forma espalhafatosa.
 Creio que  melhor ir logo chamar a senhori... a Sra. Lafleur  corrigiu-se a tempo.
 Eu gostaria muito.
O mordomo convidou-o a entrar na casa, indicando a sala de estar para que esperasse. Depois disso, foi at um telefone, apertou um boto e anunciou a presena de
Gabriel. A resposta no pde ser ouvida, mas certamente era a prpria Michelle, no outro lado da linha. O corao dele comeou a bater mais rpido.
 Ela logo descer  o mordomo avisou.
Automaticamente, Gabriel virou-se e comeou a observar a escada, esperando que a esposa aparecesse. Estava to ansioso para v-la que mal conseguia respirar direito.
Finalmente Michelle surgiu, e foi ento que o corao masculino realmente disparou.
Ela estava linda, como um sonho transformado em realidade. Erguendo-se da poltrona, ele ficou parado, incapaz de se mover, esperando que Michelle se aproximasse.
 Ol  ela cumprimentou.
 Ol.
 Por que veio?  ela perguntou calmamente, parando por um instante antes de descer o ltimo degrau.
Um sorriso desajeitado curvou os lbios dele.
 Achei que fosse bvio.
Ela encolheu os ombros.
 E . Sei muito bem quanto esse filho  importante para voc...
 Com certeza  Gabriel murmurou, acentuando o sorriso.  Mas ele no  a nica coisa importante para mim. Pena que eu tenha demorado tanto tempo para perceber isso.
Foi a vez de o corao de Michelle comear a bater mais forte, apesar de ela achar que j estava preparada para aquele tipo de conversa. Jurara a si mesma que no
reagiria a nada que ele dissesse, no importava o que fosse.
Gabriel no a amava, o que era um fato. Quanto a ela, estava de volta a seu prprio mundo. Podia contar com a ajuda do pai, ao mesmo tempo em que cuidava dele.
 Vou direto ao assunto. Andei me comportando como um idiota, e sei que no mereo seu perdo. Se me pedir para desaparecer e nunca mais voltar, vou entender.
"Droga, esse meu corao teimoso", Michelle pensou. "Ser que no poderia bater um pouco mais devagar?"
 O que est tentando dizer?  ela perguntou, procurando manter a calma. Naquele esforo, abraou o prprio corpo com uma fora desmedida.
 Droga!  ele exclamou, segurando-a pelos ombros.  Estou tentando dizer que a amo! Eu nem mesmo sei quando isso aconteceu. Ou melhor, como aconteceu. Mas 
verdade, e agora voc se transformou na pessoa mais importante de minha vida. E no quero passar o resto de meus dias sem a sua companhia.
Michelle desvencilhou-se.
 Sadie colocou essas palavras em sua boca  arriscou com desconfiana.
 No  Gabriel murmurou, meneando a cabea.  No foi Sadie... e no  por causa do beb. Voc  o nico motivo que me fez vir at aqui. Preciso estar a seu lado.
Ela ficou sem fala.
 Na verdade  ele continuou, sorrindo com amargura  esse beb foi apenas o comeo de todo um processo. Mas ele me deixou to feliz que gostaria que tivssemos
muitos outros. Cinco, talvez.
 Cinco?  Michelle indagou, sentindo que seu corao estava prestes a explodir de alegria.
 Bem  ele murmurou, encolhendo os ombros ligeiramente e sorrindo de maneira relaxada pela primeira vez desde que chegara  talvez cinco seja mesmo um exagero.
Ficaria feliz apenas com quatro.
 Bem, mas Sadie ficaria maluca por ser av de cinco diabinhos...
Lgrimas inundaram os olhos de Gabriel.
 O qu, exatamente, est me dizendo? Ainda vai ser capaz de me perdoar?
Ao notar-lhe a reao, Michelle tambm comeou a chorar.
 Estou dizendo que, j que mencionou o assunto, cinco filhos parece ser o nmero ideal para ns.
 Oh, cus!  ele quase gritou, mal conseguindo conter uma risada de alegria. Avanando um passo, tomou-a nos braos.  Eu a amo tanto!
 Eu tambm o amo. E, caso voc no saiba, j faz muito tempo que me sinto assim.
Uma sombra pareceu turvar os olhos de Gabriel.
 Voc me deixa louco quando faz isso  ele murmurou.
 Fao o qu?  ela perguntou com inocncia.
 Isso  Gabriel respondeu, e ento passou-lhe a ponta da lngua nos lbios macios.
Uma onda de prazer a percorreu, com uma intensidade indescritvel.
 Oh... isto  ela disse, repetindo a atitude de Gabriel com bom humor.
Ele a beijou com ternura, e s ento perguntou:
 Como est passando seu pai?
 Est se recuperando bem. Felizmente,  forte como um touro.
 Acha que vai chegar o dia em que ele finalmente vai aceitar nosso casamento... e nosso amor? Sem falar em nosso filho, claro.
Michelle sorriu.
 Acho que sim. Papai se transformou depois de tudo o que aconteceu. Minha felicidade passou a ser muito importante para ele.
Gabriel olhou fixamente no fundo dos olhos da esposa.
 Fico muito feliz em saber disso.
 Eu tambm fiquei, meu amor. Mais uma vez ele sorriu.
 E pensar que tudo comeou por causa de um pouco de tequila a mais, em algum lugar do Mxico...
Michelle retribuiu o sorriso.
 Pelo menos a histria acabou tendo um final feliz.
 E o sexo naquela noite at que no foi de todo mal...  ele emendou com malcia, piscando de forma conspiratria.
E ento os dois se abraaram com mais fora, colando os corpos um no outro ao mesmo tempo em que se beijavam com uma paixo quase selvagem.
Naquele momento, Michelle percebeu que atingira seu maior objetivo de vida. Sempre quisera ser aceita e amada por completo, com todas as suas qualidades e defeitos.
Para conseguir isso, sempre fizera um esforo imenso, e em algumas vezes chegara at mesmo a pensar que alimentava um sonho impossvel.
Mas era exatamente assim que se sentia quando estava nos braos de Gabriel, exatamente assim que se sentia naquele instante: amada, aceita, realizada... a mulher
mais importante do mundo.
Era uma sensao que queria manter por muito, muito tempo.
Sempre procurara a paz, e finalmente a havia encontrado no amor que Gabriel lhe oferecia.

EPLOGO
Gabriel entrou no quarto de Michelle e beijou-a levemente nos lbios. Seu filho estava no bero, ao lado da cama.
 Como est minha linda pimentinha?  ele perguntou, chamando-a pelo apelido que havia inventado nos ltimos meses.
S o usava, porm, quando estavam sozinhos. Era, claro, uma referncia  primeira noite em Acapulco. Um encontro que nenhum dos dois jamais esqueceria.
Ento ele sorriu e mostrou um embrulho que escondera atrs do corpo at aquele momento.
 Isso  para voc  explicou brevemente.  Queria lhe dar algo especial e, bem...  foi o que acabei encontrando.
 Obrigada.
Michelle sorriu. Mais uma vez Gabriel beijou-a nos lbios.
 V em frente  incentivou, ansioso.  Abra logo.
 Certo  ela murmurou, pensando no quanto adorava o marido.
Livrou-se do papel colorido que recobria a embalagem e notou um porta-retratos. Em seguida, quase engasgou ao ver que Gabriel mandara emoldurar aquele pedao de
papel que fora encontrado no bolso de sua camisa, na manh em que haviam acordado juntos, no Mxico. Bastou um olhar rpido para reconhec-lo, mas Michelle ainda
se lembrava muito bem do que estava escrito l:
Gabriel e Michelle, eu os declaro marido e mulher. Assinado, Jos Cuervo.
  nossa certido de casamento original  ele disse com os olhos faiscando de felicidade.  Voc ainda se lembra?
Os olhos de Michelle ficaram umedecidos de imediato.
 Sim,  claro... Mas lembro tambm que voc a jogou no cesto de lixo...
Gabriel sorriu de forma desajeitada.
 Eu sei  admitiu.  Mas voltei para apanh-la logo depois que voc saiu.
Michelle encarou-o, espantada.
 Mas por qu?
Ele encolheu os ombros.
 Para dizer a verdade, no sei. Imagino que no fundo j tinha percebido que havia algo especial entre ns. Mas hoje tenho certeza de pelo menos uma coisa... voc
 a coisa mais linda que aconteceu em minha vida, e nunca poderia viver sem t-la.
As lgrimas finalmente rolaram pelo rosto de Michelle.
 Oh, meu amor... Voc  to maravilhoso...
 Nunca vou ser capaz de mostrar quanto realmente a amo. Mas tambm nunca vou parar de tentar.
 No se atreva  ela murmurou, acariciando-o no peito de forma brincalhona.
E ento Gabriel beijou-a outra vez.
 Eu a amo.
 Eu tambm o amo.
 Oh, acabei de lembrar uma coisa... Seu pai ligou para nossa casa hoje. Disse que j est timo e que planeja vir para o batizado de seu primeiro neto. Claro que
eu falei que ser bem-vindo para ficar quanto tempo desejar.
Michelle sorriu novamente. Aquele era um dos dias mais felizes de toda a sua vida.
 Est pronta para ir para casa?  Gabriel perguntou um momento depois.  Sadie no v a hora de segurar o neto nos braos.
Ao ouvir aquilo, Michelle pensou na visita que seu pai lhes faria, e em como as opinies de Sadie e Sylvan em relao  vida eram diferentes... Sem dvida, seria
um encontro e tanto!
Erguendo a cabea, fitou Gabriel, e o sorriso acentuou-se em seus lbios.
 Estou pronta, meu amor  respondeu.  Vamos para casa.
Ele apanhou o filho no bero e colocou-o cuidadosamente nos braos ansiosos de Michelle. O beb fez uma careta e acabou se acomodando confortavelmente no colo materno
segundos depois, procurando pelos seios.
 Ele est com fome de novo!  ela exclamou, alegre.
 Ento, vamos logo para casa  Gabriel disse com voz vibrante.
Em seguida passou o brao pelo ombro de Michelle, num gesto de conforto e proteo. E, como j havia se tornado comum nos ltimos meses, fez com que ela se sentisse
uma deusa. O amor que o marido lhe dedicava era, na verdade, muito maior do que ela jamais pudera imaginar.
Um pensamento agradvel, principalmente levando em conta os anos que viveriam juntos. Aquele amor era como um trono, para o qual Gabriel conduzia sua rainha.

FIM











DICAS: A VOLTA PARA CASA
Absorvida com a rotina imposta pelo beb, muitas vezes a mulher negligencia os cuidados para consigo mesma, passando at por desconfortos e sofrendo dores que no
deveria desconsiderar. Alguns problemas, inclusive, so facilmente resolvidos com a assistncia do mdico. Veja a seguir as principais ocorrncias que podem atormentar
a mulher aps o parto:
        Anemia
s vezes ela aparece porque o beb sugou as reservas que o organismo da mulher dispunha durante a gestao ou porque houve uma grande perda de sangue durante o
parto. Causa sonolncia, apatia e inapetncia. Apenas o mdico pode indicar o melhor tratamento, mas uma alimentao rica em ferro, substncia que est faltando
em seu organismo, ajuda muito: fgado e carne de vaca, feijo, lentilhas, verduras como o espinafre, frutas secas como figo, tmaras e as nozes em geral.
        Febre
Ela no  motivo preocupaes se surgir antes da descida do leite, pois  comum nesse perodo e no tem significao maior, passando assim que o leite se normaliza.
Mas se persiste, aumenta e  acompanhada de dor, pode ser sintoma de mastite, uma inflamao nos seios e o mdico deve ser procurado com urgncia. As mulheres que
passaram por uma cesariana tambm devem procurar o mdico pois, a febre pode estar ligada ao processo de cicatrizao do corte.
        Priso de ventre
A internao hospitalar, aliada ao fato da falta de atividade fsica e alimentao diferente da que a mulher estava acostumada pode causar a priso de ventre. Outro
fator que agrava o problema  o medo que algumas mulheres tem de fazer fora e arrebentar os pontos no caso de ter sofrido cesariana ou episiotomia. Alimentos 
base de fibras, alm de frutas e verduras, ajudam a regularizar a situao, mas se for preciso, uma lavagem intestinal pode ajudar os casos mais renitentes.
        Sangramento
Logo aps o parto, surge um sangramento vaginal, que decorre da ferida deixada pelo descolamento da placenta. Esse ferimento leva, em mdia, 30 dias para cicatrizar,
tempo que dura o sangramento. Mas se ele se estender, alm disso,  necessrio um exame mdico criterioso para verificar se no restaram traos da placenta dentro
do tero. Em caso afirmativo, ser necessrio fazer uma limpeza em seu interior.


OS 15 PRIMEIROS DIAS DO BEB EM CASA
As primeiras semanas depois do nascimento do beb sempre so complicadas para a me, principalmente se  o primeiro filho. Cedo, ela descobre que a teoria na prtica
 outra e que sempre surge situaes novas ou desconhecidas. Alm disso, o cansao e a depresso que costumam aparecer aps o parto, no combinam com visitas que
chegam nas horas mais imprprias, perturbando o sossego e a rotina da casa. Calma, bom senso e organizao so os melhores aliados da mulher nesse perodo.

A ROTINA DO BEB
Um pouco de bom senso  indispensvel para a mulher organizar as coisas em casa e estabelecer uma rotina racional e confortvel, tanto para o beb, como para as
demais pessoas da casa. Veja algumas dicas que a ajudaro a preservar a tranqilidade de todo mundo e, principalmente, a sua:
Durante os trs primeiros meses o beb exige cuidados especiais e facilita muito a vida dos pais se ficar no mesmo quarto com eles.
As visitas devem ser limitadas, mesmo a de familiares. As pessoas no devem segurar o beb. Quem fizer questo, ter que antes lavar bem as mos. Pessoas com qualquer
tipo de infeco, inclusive resfriados, devem se abster de visitar o recm-nascido. Beijos, apenas os da me, pois a contaminao tambm ocorre pela saliva. Os pais
devem pedir que as visitas telefonem antes de aparecer e determinar o melhor horrio para receb-las. E no devem se constranger em dispensar algumas ou marcar um
outro dia para que apaream. Uma dica que pode ajudar a evitar situaes constrangedoras  marcar um horrio em que a criana esteja dormindo e no deve ser acordada.
Os apetrechos do beb ficam num espao da cozinha reservado s para eles, como uma diviso do armrio ou um gaveto. O quarto deve ter um cesto de lixo bem  mo,
assim como um cesto para roupas sujas.
Todos os objetos do beb so esterilizados para evitar risco de contaminao.
A gua para beber e preparar mamadeiras precisa ser filtrada, fervida e conservada em um recipiente de loua ou vidro previamente esterilizado e que se feche hermeticamente.
Aps cada troca de fralda, o beb precisa ser limpo com gua filtrada e fervida, morna. Uma garrafa trmica, usada apenas para este fim, pode ser mantida no quarto
do beb para evitar ter de aquecer a gua todo instante.
Os horrios do recm-nascido devem ser mantidos, mas nem sempre ele tem o mesmo apetite. s vezes pode querer ficar dormindo num dos perodos em que deveria mamar,
sem que isso se constitua um problema.
Nos primeiros meses, a criana comea regurgitar, mesmo depois de arrotar. Para evitar o risco de que ela venha aspirar o vmito, pode-se colocar um travesseiro
pequeno entre o colcho e o estrado do bero.
As fraldas ficam bem  mo, acondicionadas num porta-fraldas.
Antes de dar banho no beb,  preciso verificar se todos os itens necessrios esto por perto: toalha, sabonete, cesto com o material para a higiene.

ALIMENTAO NOS PRIMEIROS DIAS DE VIDA
O melhor alimento para o beb  o leite materno e se a criana recebe o seio, mamar de trs em trs horas, ou de duas em duas, conforme a sua demanda. Entretanto, 
se ela vai ser alimentada com leite em p modificado, deve-se seguir as instrues do rtulo do produto ou o critrio mdico. As crianas amamentadas ao seio no 
precisam receber gua, pois, o leite materno alimenta e mata a sede ao mesmo tempo. J as que se alimentam com mamadeira devem receber gua filtrada e fervida, 
fria, sem adio de acar, no intervalo entre as mamadeiras. Isso evita que seu organismo se desidrate. Mas, quando o beb rejeita a gua,  sinal de que no tem 
sede e a me no deve insistir.

CLICAS
As clicas so fortes contraes do estmago ou do intestino, causadas por gases ou problemas intestinais alrgicos e costumam aparecer ao redor dos dez primeiros 
dias de vida em diante, estendendo-se at o terceiro ms. Elas surgem depois que o beb foi alimentado e est quase voltando a dormir. As clicas causam dores e 
o beb chora alto e continuamente por causa disso. Existem muitos fatores que desencadeiam as clicas: desde bicos de mamadeiras inadequados, maneira incorreta de 
segurar o beb para mamar, crianas que mamam depressa demais, at a ansiedade de quem lida com a criana. Manter a rotina das refeies, verificar a temperatura 
certa das mamadeiras, fazer a criana arrotar, evitar sons altos que possam excitar o beb, so formas de diminuir o problema. Segurar a criana no colo, massage-la, 
oferecer um ch de camomila ou erva-doce sem acar e quase frio, coloc-la de bruos, aplicar uma flanela aquecida ou uma bolsa com gua morna sobre as roupas do 
beb, na altura do abdmen, tambm so providncias que ajudam. Gotas antiespasmdicas devem ser indicadas pelo mdico, pois podem ter efeito txico.

O QUE AS FEZES DO BEB PODEM REVELAR
De vez em quando os bebs evacuam fezes em que a poro slida est separada da poro lquida, que so conhecidas como fezes desarranjadas. O aspecto da parte slida 
 grumoso, esverdeado ou escuro e as fezes cheiram mal. Esse fenmeno tem vrias causas: calor, alimentao desequilibrada (excesso de leite em p ou acar no preparo 
da mamadeira), ou mesmo infeces.
A aparncia das fezes do beb que mama ao seio  pastosa, cor de mostarda, com coalhos de leite. O beb que toma mamadeira tem as fezes mais firmes, cor amarelo-escuro 
e cheiro cido.
A diarria caracteriza-se por evacuao freqente, quase lquida e que apresenta coloraes diversas. Ela pode ser causada por excesso de alimentao, intolerncia 
ao leite, ou s farinhas que esto sendo adicionadas a ele. Algumas infeces tambm causam diarria. Sempre que a criana apresentar essa alterao, deve receber 
soro hidratante, na proporo e quantidade que o mdico recomendar. Postos de sade tambm esto equipados para esse atendimento.
O mdico tambm deve ser procurado quando as fezes do beb apresentarem catarro, pois esse  um sintoma comum de infeco intestinal.

ASSADURAS: COMO EVIT-LAS
O contato da pele do beb com as fezes e a urina provoca assaduras. Elas se manifestam com uma vermelhido na pele das ndegas. Causam dor e incmodo  criana 
e, se no tratadas, podem levar a leses mais srias. Para evit-las, alguns cuidados so muito eficazes.
Passar a usar apenas fraldas de algodo.
Evitar calas plsticas que podem causar assaduras por no permitir a ventilao da pele.
Evitar o uso de produtos que contenham anti-spticos. Quando usados na lavagem das fraldas, eles podem provocar alergias ou assaduras.
Sempre que as fraldas estiverem molhadas ou sujas, devem ser trocadas.
Nos trs primeiros meses de vida, a pele do beb  muito frgil e sensvel e deve ser limpa com algodo embebido em gua filtrada e fervida j morna a cada troca 
de fraldas. Depois dos trs meses, a criana pode ser lavada em gua corrente, morna, com sabonete neutro ou infantil.
Uma pomada apropriada tambm pode ser usada para isolar a pele do beb e impedir que a pele entre em contato da urina.
Quando a criana for passear, a me no deve esquecer o recipiente com gua limpa, o algodo e o produto que  usado para a higiene.
No  aconselhvel usar fraldas para efetuar a higiene do beb, pois, o tecido acaba irritando ou assando a pele delicada dele.
Se o beb j est com assaduras a pele que j est irritada deve ser mantida seca. Um bom mtodo  deixar a criana sem fraldas por algum tempo aps a higiene, principalmente 
na hora do banho de sol, logo pela manh, nos dias quentes.
Evitar o uso de pomadas ou outras substncias oleosas que s iro agravar as assaduras.
Banhos ou compressas com permanganato de potssio tambm ajudam a combater o problema.
Assadura no tratada corretamente pode trazer complicaes como a monlia, o mesmo fungo que causa o sapinho, e que tambm ataca a pele das ndegas formando um intenso 
pontilhado vermelho; ou o impetigo, uma infeco bacteriana, que provoca o aparecimento de erupes avermelhadas com uma bolinha de pus no centro. Nesses casos, 
somente o mdico pode indicar o tratamento adequado.

O BANHO DO BEB
No h nada de errado dar banho no beb desde os primeiros dias em que ele chega em casa. Algumas maternidades, inclusive, costumam adotar o sistema de banho completo 
para os recm-nascidos. Entretanto, muitas pessoas se preocupam em molhar o coto umbilical achando que isso pode acarretar algum problema ao beb. Desde que se 
seque bem o coto e em seguida se aplique lcool absoluto ou mertiolate incolor, envolvendo-se o local em gaze esterilizada, tomando o cuidado para no apertar, 
o banho no tem qualquer contra-indicao.
A gua para o banho deve ser fervida e a banheira escaldada at o beb completar um ms. A temperatura da gua deve ser morna, entre 34 a 35, o que pode ser verificado 
com o simples toque da mo.  importante evitar correntes de ar no local do banho para que a temperatura do quarto no oscile de repente. O sabonete usado deve 
ser neutro para no irritar a pele sensvel do beb. Depois do banho, envolve-se o beb em uma fralda-toalha e enxuga-se com delicadeza, observando-se as dobras 
de pele, os espaos entre os dedos das mos e dos ps. O melhor horrio para o banho fica no meio do dia, quando a temperatura  mais quente, mas nada impede que 
ele seja banhado no final da tarde, principalmente nos dias mais quentes.
Nem sempre o beb chora nos primeiros banhos, mas h alguns fatores que desencadeiam o choro. O primeiro deles  ser despido nos dias mais frios. O choro comea 
quando o beb  colocado na gua, pode significar que a temperatura est muito fria ou muito quente. Se a pessoa que d banho  inexperiente, pode estar segurando 
o beb com fora demais, ou de maneira desajeitada. O beb tambm chora quando a gua que enxgua a cabea cai nos olhos ou entra no nariz. s vezes, as paredes 
lisas da banheira do ao beb uma sensao de insegurana, de que vai deslizar para dentro da gua, e ele chora. Um simples forro anti-derrapante, que pode mesmo 
ser uma toalha bem dobrada, resolve o problema.
Os olhos devem ser limpos com um algodo embebido em gua fervida ou soluo fisiolgica, tendo-se o cuidado de usar um chumao de algodo para cada olho, evitando 
assim de passar uma possvel infeco de um olho para outro.

COMO SEGURAR O BEB
Com a mo esquerda apoiada nas costas e a direita segurando as ndegas, leve o beb para a gua. Com um movimento suave, abaixe-a at sentir o dorso da mo tocar 
no fundo da banheira.
Retire a mo direita com calma, enquanto envolve o brao do beb com a esquerda. Verifique se a cabea dele est bem apoiada em seu brao. Incline o beb para trs, 
mas mantenha-o com a cabea mais alta que o corpo. Com a mo direita molhe todo o corpo e a cabea. Em seguida ensaboe o pescoo, os braos, as axilas, as mos, 
a barriga, pernas e ps. Enxge. Ensaboe a cabea e enxge jogando a gua para trs.
Agora a criana deve ser virada de frente para a gua: com o brao direito segure o trax, apoiando a mo e o brao sob suas axilas, com a mo livre, ensaboe as 
costas e as ndegas e enxge. As dobras da pele do bumbum assim como os genitais devem merecer ateno especial no banho: precisam ser bem ensaboadas e bem enxaguadas 
para que no ocorram assaduras e brotoejas. Volte a apoiar o beb no brao esquerdo para vir-lo de frente para voc. Agora  s retirar o beb da gua e enxug-lo.

A TOALETE DO BEB
A pessoa que cuida da criana deve manter as unhas curtas e lavar as mos com gua e sabo antes de toc-la.
Os olhos devem ser limpos com um algodo embebido em gua fervida ou a soluo fisiolgica, tendo o cuidado de usar um chumao de algodo para cada olho, conforme 
explicamos no banho do beb.
O coto umbilical costuma cair entre o oitavo e o dcimo quinto dia e precisa receber curativo pelo menos duas vezes por dia. Para higieniz-lo basta passar lcool 
absoluto ou mertiolate incolor (as tinturas como o mercurocromo podem impedir que se perceba um foco de infeco), o curativo deve ser feito com gaze esterilizada, 
sem o auxlio de esparadrapos ou cinteiros, a prpria fralda deve servir para manter a gaze no lugar e o umbigo protegido.
As unhas do beb devem ser cortadas enquanto ele dorme.
Talcos e perfumes podem provocar alergias ou irritar a pele sensvel do beb.
Limpar o nariz da criana sempre que houver alguma secreo dificultando a respirao, pode-se usar um pedao de gaze esterilizada, ou a ponta de uma fralda limpa. 
Se a secreo estiver endurecida, pingue algumas gotas de soro fisiolgico na narina afetada.
Limpar os ouvidos da criana requer certos cuidados: nunca introduza o cotonete no ouvido da criana, alm de ser perigoso, a cera que se acumula a tem uma funo 
protetora e no deve ser removida. Use o cotonete apenas na parte de fora da orelha. No se deve deixar que a gua do banho penetre nos ouvidos da criana. Se isto 
acontecer, uma gotinha de lcool boricado pode ser pingada no ouvido afetado.
Se por alguma razo a criana no puder ser banhada, deve-se fazer sua higiene com o tradicional "banho de gato": num recipiente de plstico pequeno, usado apenas 
para este fim, colocar gua morna, filtrada e fervida, e, com a ajuda de chumaos de algodo, ir fazendo a higiene do beb. O "banho de gato" deve comear sempre 
pelos olhos e rosto, depois a cabea e em seguida o restante do corpo.
As crostas da cabea costumam desaparecer com o tempo e os hbitos corretos de higiene. Mas para acelerar o processo pode-se usar um pouco de leo de amndoas alguns 
minutos antes do banho, depois passar um pente fino delicadamente e em seguida lavar a cabea. Se as crostas voltarem a aparecer ou surgirem nas sobrancelhas e atrs 
das orelhas,  preciso consultar o pediatra.
Os bebs cabeludos, devem ter a cabea cuidadosamente seca com uma fralda-toalha e, em seguida, os cabelos penteados com uma escova apropriada.
As roupas do beb precisam ser lavadas com gua e sabo neutro, pois os detergentes em p costumam ter substncias custicas que causam alergias na pele do recm-nascido. 
As roupas tambm devem ser passadas a ferro quente do avesso e do direito para esteriliz-las.
As fraldas acumulam germes e devem ser muito bem lavadas, fervidas e passadas com o ferro quente.
Ao trocar a fralda, o beb deve ser limpo com chumaos de algodo embebidos em gua filtrada, fervida e fria. Uma camada de pomada prpria para
evitar assaduras tambm pode ser uma boa arma de manter o beb livre delas.

CHUPETA
A chupeta, quando bem utilizada e escolhida, tem seu papel na vida do recm-nascido, servindo para acalmar ou aliviar necessidade instintiva de suco, que comea 
a ser treinada ainda no tero. E prefervel que a criana chupe a chupeta que o polegar, pois o hbito da chupeta  mais fcil de ser abandonado. Entretanto, no 
se deve for-la a ele.
Para se oferecer chupeta s crianas,  preciso observar certos critrios e horrios. At os cinco ou seis meses, o uso pode ser contnuo, depois disso usar apenas 
para dormir, quando a criana j est deitada; depois de um susto ou tombo, para acalm-la.
Alguns especialistas acham que a criana no deve chupar a chupeta o dia inteiro, pois a consideram prejudicial emocionalmente. Cordes ou fraldas para prender 
a chupeta ao pescoo do beb so perigosos e no deve ser usados. Manter as chupetas esterilizadas em um pote fechado e troc-las por uma limpa sempre que o beb 
as deixar cair. O hbito deve ser diminudo depois dos dois anos de idade. E, aps os cinco, quando comea a aparecer a dentio definitiva, o uso da chupeta prejudica 
a formao da arcada dentria.
Um problema que  agravado pelo uso da chupeta so clicas, pelo fato do beb engolir ar.
A melhor maneira de verificar a segurana de uma chupeta  fazendo os seguintes testes:
Puxe a borracha do bico com fora para verificar se ela no solta ou arrebenta.
Dobre a parte plstica para ver se no quebra. As bordas dessa parte protetora no devem ser muito finas para no provocar cortes no beb.
A parte plstica deve ter um furo de cada lado para permitir a entrada de ar.

BRINCOS
Em geral,  ao final do primeiro ms de vida que as meninas tm o lbulo de suas orelhas furadas para o uso de brincos. Mesmo sendo uma prtica comum, deve-se observar 
determinados critrios para se furar as orelhas:
Cuidadosa desinfeco do lbulo, dos materiais utilizados e perfeita higiene das mos de quem vai proceder a colocao.
Mertiolate ou outros tipos de tinturas no devem ser usados no curativo porque causam irritao da pele.
Usar apenas o mtodo Caflon (aparelho que fura a orelha por presso de ar, utilizando para isso um brinco com pino de ao cirrgico, banhado a ouro).
Depois de um ms, o brinco pode ser removido e substitudo por outro de ouro.

VIAJANDO COM BEB
Como os trens so um meio de transporte pouco usado no Brasil, apenas dois outros so aconselhveis para as crianas pequenas: o carro e o avio. Veja a seguir algumas 
dicas para tornar as viagens mais seguras e confortveis, tanto para a criana, como para os adultos.

Carro 
Nos primeiros meses, os bebs podem ser transportados dentro do Moiss, na parte traseira do auto mvel. Quando esto mais crescidos,  melhor e mais seguro acomod-lo 
na cadeira apropriada, colocada no assento traseiro.
Para evitar enjos, no inicie uma viagem logo aps as refeies, evite fumar dentro do carro, e faa paradas regulares para a criana "descansar" alguns minutos 
e, se j anda, caminhar um pouco.
Permita que a criana durma durante o trajeto ou comece a viajem o mais cedo possvel, quando ela ainda est dormindo.
Leve frutas, gua e ch para oferecer  criana durante a viagem, de preferncia nos horrios em que ela normalmente os recebe.
Avio
No  aconselhvel que o beb viaje de avio antes de ter 15 dias, pois seu sistema respiratrio ainda no est amadurecido para suportar as variaes bruscas de 
presso a que todo vo est sujeito.
Oferea a chupeta ou a mamadeira durante a decolagem e a aterrissagem, pois elas aliviam a compresso que o ouvido sofre.
 bom fazer a criana dormir durante o vo.

FRALDAS
Um item que nunca  esquecido quando se fala em bebs so as fraldas. Elas so indispensveis e os acompanham desde que eles nascem at pelo menos os dois anos 
de idade. Existe uma variedade enorme de marcas e preos no mercado, e a escolha ideal leva em conta tanto o bem-estar da criana quanto o da pessoa que cuida dela.
Fraldas descartveis
As fraldas descartveis so a resposta mais prtica a essa necessidade do beb. Principalmente para o ritmo de vida que a maioria das mes tem nos dias de hoje. 
Talvez seu nico inconveniente seja o preo, embora j se possa contar com vrias marcas de excelente qualidade no mercado e vrios preos. Mesmo que o casal opte 
pelas fraldas de pano, as descartveis so excelentes para acompanhar o beb quando ele viaja e nas suas sadas. Elas ajudam a mulher, que assim no tem de carregar 
fraldas sujas ou lav-las onde estiver.
O conforto que as fraldas descartveis proporcionam ao beb  outra de suas vantagens: a parte que fica em contato com a pele  de algodo absorvente e o deixam 
sequinho; por fora, elas so plastificadas,  prova de vazamentos. Seu corte anatmico se ajusta s pernas da criana, outra garantia de roupas sempre secas.
Normalmente, as fraldas descartveis so apresentadas em quatro tamanhos bsicos: recm-nascido, 5-8 quilos, 8-10 quilos e mais de 10 quilos.
Fraldas de pano
Alm de mais econmicas, as fraldas de pano normalmente so muito confortveis para o beb, pois seu tecido fino mantm a pele mais ventilada. Por isso, antes de 
compr-las, examine seu tecido com ateno, para verificar se sua textura  macia ao toque. A quantidade de 60 fraldas  a ideal, pois nos primeiros meses o beb 
suja fraldas com mais freqncia.
Existem diversas maneiras de dobrar as fraldas para coloc-las no beb, mas, qualquer que seja a forma escolhida, deve-se observar: se ela ficou do tamanho adequado 
para a criana; que a parte mais espessa da fralda fique onde h mais acmulos de urina, nos meninos na parte da frente, nas meninas, na de trs; se a fralda ficou 
dentro da cala plstica, para evitar vazamentos.

Notas Gerais
O soluo resulta da contrao dos msculos abdominais em conjunto com o diafragma.  incuo para a criana, e alguns especialistas dizem que ele s ocorre nas que 
esto com digesto normal. Entretanto, soluos constantes podem ser sinal de que o leite das mamadeiras no est sendo diludo corretamente ou que as mamadas esto 
muito prximas umas das outras.
Vmitos no devem ser confundidos com regurgitao. Ao contrrio dela, os vmitos acontecem em forma de jato e "devolvem" boa quantidade de leite ingerido. Excitao 
nervosa, barulho e luzes fortes, mamadeiras sem a correta diluio do leite so causas comuns do vmito das crianas. s vezes, essa reao est ligada  tosse 
ou o beb tem tendncia a se engasgar. Se nenhum desses motivos tiver desencadeado o vmito, deve-se verificar a temperatura da criana, outro fator que costuma 
provocar vmitos. O mdico deve ser procurado caso essa manifestao se torne freqente.
Pequenas manchas brancas que aparecem sobre a lngua, a qual apresenta uma colorao vermelha intensa, so chamadas de sapinho ou oidiose. Trata-se de uma infeco 
causada pela monlia, um fungo em geral adquirido durante o parto, mas que pode surgir ao longo do primeiro ms de vida. Durante esse tempo, o beb no produz 
saliva suficiente para evitar a acidez da boca, fator que contribui para desenvolver a infeco. O tratamento utiliza um medicamento apropriado, adquirido sob receita 
mdica, e o local afetado no deve ser raspado. Muitas crianas sentem dor ao mamar quando esto com sapinho e passam a recusar a alimentao.



KRISTIN MORGAN vive em Lafayette, na Louisiana, onde o francs usado pelos colonizadores ainda  falado com fluncia pelas pessoas mais velhas.  muito feliz no 
casamento com seu namorado de colgio, e dessa unio duradoura nasceram trs crianas. Kristin e seu marido j viajaram por todo o Sul, assim como por outras regies 
dos Estados Unidos e do Mxico, e se consideram pessoas de muita sorte porque sua cidade favorita, Nova Orleans, est a apenas duas horas de Lafayette.
Alm de escrever, ela gosta de cozinhar autnticos pratos da comida cajun para sua famlia, usando receitas que so passadas de gerao a gerao. Seus hobbies 
incluem leitura ( claro), jardinagem e pescaria. Ela tambm adora andar na chuva, bebs recm-nascidos, todos os tipos de msica, sobremesas de chocolate e histrias 
de amor com finais felizes. Uma romntica incurvel, Kristin acredita que todas as coisas so possveis quando se ama.
